domingo, 23 de novembro de 2008

Bônus 1

- Tem dez centavos?
Após vasculhar sua carteira.
- Não.
Sua sentença lhe traria uma proporção indefinida, a balconista sacara um punhado de moedas, centavos a perderem de vista, lhe entregando uma irrisória quantia cuja importância era concedida de acordo com a índole dos autores do ato, a dele valia mais que a breve quantia em suas mãos. Preferiu não fazer a contabilidade instantânea, confiara na pobre diaba mesmo desconfiando do seu poder de cálculo. O café estava quente como o verão daquele dia de fevereiro. Porque tomar bebida tão quente num dia daqueles? Era a pergunta mais estranha que se podia indagar.
Guardados os devidos centavos levou o copo de café consigo no trem, não tinha o privilégio de sentar-se à mesa para degustar sua bebida predileta, sua mão segurava firme o líquido, aquela fervura não a agredia, estava acostumado e era tudo proporcional, tudo se encaixava perfeitamente, a mão, o copo, calor, o líquido, o dia, menos o trem, era muito pequeno pra tanta gente, noves fora tudo estava em sua ordem, natural? Não sabia mais ao certo sua natureza, nem de onde vinha, só necessitava chegar brevemente, o mundo não espera os caprichos humanos, os caprichos moldam o mundo.
Logo pela manhã muitas pessoas, demasiada movimentação, essa era a rotina desde a estação primeira à vindoura. Do destino à origem os contrários se encontravam a cada parada, a cada abertura de porta, a cada vagão preenchido uma nova cara ainda que não muito cara ao olhar. Ao longo do dia novas e velhas formas humanas cruzariam seu caminho. Outro café, mais e outras moedas, outras palavras, o mesmo sentido, outros sentidos, sons, visões de uma visão de mundo, palavras mesmas, mesmos prazeres, torturas... O dia passa. Passou...
O trem chegou novamente, a repetição se repete com o retorno se confundido com a ida. Não se sabe ao certo do que se trata o que ele quer tratar de ser. O que mais? Uma sobrevida como a de Joseph K. seria como deus um tratante, um falso sacerdote, real humanidade. De Maomé à Brahma havia crido em muitas divindades, as desavenças da rotina fizeram-no olhar para as espécies como pura evolução, mas agora, depois daquelas moedas todas desacreditou de Darwin. Pensou em suicídio. Recuou. Pensou em castração. Doeria. Tatuou as costas. O quê não importa. Tatuou. E tatuou algo significativo pra ele. Ninguém precisa entender. Mas seu café vai esfriar e o trem parou na plataforma, é preciso correr, a porta se abriu, a aglomeração se formou, a porta vai fechar, correu, fechou-se a porta. Nem Brahma nem Darwin o destino está no comando.


RODRIGO H.

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