Mais do mesmo
As ruas não eram bastante para aquilo tudo, retas e curvas, mas não o bastante. A população se aglomerava e, assim como a rua, a polícia não era suficiente, apesar disso o mercado exercia seu controle. O céu estava cinzento, as nuvens baixas, ameaça de chuva, mas não havia pausa, a comida era fast food, a alimentação um detalhe, os carros que optavam passar por ali não passavam, a rua era do povo, e quando o povo sai às ruas não há governo que se sustente, a não ser o comércio. Numa rua contígua dois senhores sentados num banco contrastam com aquela agitação, seus pombos os rodeavam, o milho já não era suficiente.
- Há anos damos milhos a esses pombos. Já conheço cada um e quando um qualquer morre me entristeço.
- É verdade, nos afeiçoamos aos animais e às coisas. As coisas são sábias, sabia? Quando eu tinha vinte e dois anos dava valor às coisas, valor material, valor monetário, mas não sabia direito sobre a importância delas.
- Achamos valor nas pessoas, amigos, filhos, pais, netos e até nos nossos pombos companheiros de velhice, mas nas coisas... Só atribuímos valor material. Onde há sabedoria nas coisas?
- Sobretudo após a revolução industrial as coisas guiam o ser humano mais que o próprio humano. Veja o exemplo do automóvel! Você guia seu dinheiro para a poupança para poder adquirir um carro, meses e meses suas moedas são guardadas para tal finalidade, quando o dinheiro é suficiente você o compra. Ao comprá-lo pensa que vai se sentir mais livre, mas quando vai ver ele te guia novamente. Guia ao mecânico, ao posto de gasolina, à farmácia, e quando percebe ele está velho e há um novo lançamento te instigando na vitrine ou na propaganda.
- Isso sem falar nessas novas parafernálias eletrônicas!
- Pois é, olhe seus netos.
Muito lucro, os vendedores trabalham sem parar, dia e noite, de galo a galo muitos se tornavam corujas, mas não havia jeito a vida é assim, sem trabalho nada feito. E deveriam aproveitar o momento, pois é no fim do ano que as vendas são alavancadas, é quando se ganha mais dinheiro.
O tumulto na porta das lojas era perturbador, mal os lojistas pensaram em acordar e os consumidores já penavam em consumir, aproveitar as ofertas era fundamental para boas festas, valia à pena o sacrifício, presentes e comemorações não são todo dia. Dinheiro? Dá-se um jeito. As lojas facilitam o pagamento através de carnês, cartões, boletos..., o que não pode é faltarem festa e presente, e pra que isso aconteça é necessário um pouco de sacrifício.
Àquele volume de pessoas os velhos não davam atenção, estavam acostumados aos transeuntes da zona central da cidade, olhavam aos pombos e faziam uma analogia. A diferença é que os pombos agiam com o estômago.
- Qual a diferença mesmo?
- Não sei mais.
- Nem sexo mais?
- Acho que não.
- Quando jovem adorávamos sexo.
- Porque quando jovem? Não gosta mais?
- Gosto, mas sou viúvo esqueceu?
- Ah é. Mas qual o problema? A cidade está cheia de bailes de terceira idade?
- Mas não sobe mais.
- E o viagra?
- Tenho medo de tomar essas novas drogas.
- Mas você fuma há quarenta e seis anos!
- E daí?
- Você tem medo de morrer agora? Depois de velho? Na velhice morrer é conseqüência, devia ter pensado nisso quando tragou seu primeiro fumo.
- Mas o primeiro foi de maconha.
- To falando de cigarro, nicotina.
- Ah, tenho culpa? Queria ser como o cowboy da propaganda. Lembro-me até do slogan “Venha para o mundo de marlboro!”.
- E foi mesmo. Agora ta com medo de tomar um remedinho bobo, será só mais um na lista. Há quanto tempo que você não vê seu pau subir?
Um pombo pousa no banco e vem comer na mão de um dos velhos. Ele o espanta.
- Porque fez isso?
- Se não fizer ele acostuma, e se acostumar os outros também vão querer que lhes dê milho na mão.
Uma das lojas não abrira, alegou falta de produto. A população em fúria forçava a porta de metal. Gritos eram ouvidos, gritos de protesto, de xingamentos, palavrões, e uma infinidade de elegâncias se ouviam nos arredores, a polícia foi chamada. Houve quebra-quebra, os camelôs aproveitaram para destruírem alguns estabelecimentos, muitos foram detidos, outros presos, Qual a diferença de preso e detido? É que um aceita o outro não. E na escalada de violência o confronto chegou cerca do banco dos senhores e dos pombos.
“No congresso foi aprovada a lei que limita a carga horária semanal para estudantes dos primeiro e segundo graus da rede pública. O que antes era de 25hs semanais agora passará para 20hs semanais, com a não obrigatoriedade do ensino das disciplinas de filosofia e história...” Informava o radinho de pilha velho de um dos velhos.
- Que negócio é esse? No nosso tempo a gente estudava cinqüenta horas por dia! Não por semana! Por isso que tem um monte de analfabeto por aí.
- E as lojas continuam lotadas... E as ruas? Olhe essas ruas? Essa gente?
- É o que o povo quer, só isso. Por isso prefiro os pombos. Por isso prefiro meu cigarro. Por isso não vou comprar merda nenhuma de viagra!
- Vai continuar de pau mole?
- Vou.
- Mas só por causa disso? Olha tem uma senhora que eu conheço...
- Não quero!
- Então o que quer? Morrer de vez?
- Porque não?
- Porque sim?
- Olha o pombo aí. Espanta ele!
- Xô! Xô!
- Vou levar meus pombos pra um lugar mais calmo.
- Vamos!
- E nem me fale em senhoras! Deixe-me cá com meus pombos.
- Assunto encerrado.
Aquela gente acordava sempre, sempre que pensava estar acordada. Cada vez mais comprando o necessário, cada vez mais desculpas, mil delas para irem às compras, cada vez mais e mais... menos indignação.
As ruas não eram bastante para aquilo tudo, retas e curvas, mas não o bastante. A população se aglomerava e, assim como a rua, a polícia não era suficiente, apesar disso o mercado exercia seu controle. O céu estava cinzento, as nuvens baixas, ameaça de chuva, mas não havia pausa, a comida era fast food, a alimentação um detalhe, os carros que optavam passar por ali não passavam, a rua era do povo, e quando o povo sai às ruas não há governo que se sustente, a não ser o comércio. Numa rua contígua dois senhores sentados num banco contrastam com aquela agitação, seus pombos os rodeavam, o milho já não era suficiente.
- Há anos damos milhos a esses pombos. Já conheço cada um e quando um qualquer morre me entristeço.
- É verdade, nos afeiçoamos aos animais e às coisas. As coisas são sábias, sabia? Quando eu tinha vinte e dois anos dava valor às coisas, valor material, valor monetário, mas não sabia direito sobre a importância delas.
- Achamos valor nas pessoas, amigos, filhos, pais, netos e até nos nossos pombos companheiros de velhice, mas nas coisas... Só atribuímos valor material. Onde há sabedoria nas coisas?
- Sobretudo após a revolução industrial as coisas guiam o ser humano mais que o próprio humano. Veja o exemplo do automóvel! Você guia seu dinheiro para a poupança para poder adquirir um carro, meses e meses suas moedas são guardadas para tal finalidade, quando o dinheiro é suficiente você o compra. Ao comprá-lo pensa que vai se sentir mais livre, mas quando vai ver ele te guia novamente. Guia ao mecânico, ao posto de gasolina, à farmácia, e quando percebe ele está velho e há um novo lançamento te instigando na vitrine ou na propaganda.
- Isso sem falar nessas novas parafernálias eletrônicas!
- Pois é, olhe seus netos.
Muito lucro, os vendedores trabalham sem parar, dia e noite, de galo a galo muitos se tornavam corujas, mas não havia jeito a vida é assim, sem trabalho nada feito. E deveriam aproveitar o momento, pois é no fim do ano que as vendas são alavancadas, é quando se ganha mais dinheiro.
O tumulto na porta das lojas era perturbador, mal os lojistas pensaram em acordar e os consumidores já penavam em consumir, aproveitar as ofertas era fundamental para boas festas, valia à pena o sacrifício, presentes e comemorações não são todo dia. Dinheiro? Dá-se um jeito. As lojas facilitam o pagamento através de carnês, cartões, boletos..., o que não pode é faltarem festa e presente, e pra que isso aconteça é necessário um pouco de sacrifício.
Àquele volume de pessoas os velhos não davam atenção, estavam acostumados aos transeuntes da zona central da cidade, olhavam aos pombos e faziam uma analogia. A diferença é que os pombos agiam com o estômago.
- Qual a diferença mesmo?
- Não sei mais.
- Nem sexo mais?
- Acho que não.
- Quando jovem adorávamos sexo.
- Porque quando jovem? Não gosta mais?
- Gosto, mas sou viúvo esqueceu?
- Ah é. Mas qual o problema? A cidade está cheia de bailes de terceira idade?
- Mas não sobe mais.
- E o viagra?
- Tenho medo de tomar essas novas drogas.
- Mas você fuma há quarenta e seis anos!
- E daí?
- Você tem medo de morrer agora? Depois de velho? Na velhice morrer é conseqüência, devia ter pensado nisso quando tragou seu primeiro fumo.
- Mas o primeiro foi de maconha.
- To falando de cigarro, nicotina.
- Ah, tenho culpa? Queria ser como o cowboy da propaganda. Lembro-me até do slogan “Venha para o mundo de marlboro!”.
- E foi mesmo. Agora ta com medo de tomar um remedinho bobo, será só mais um na lista. Há quanto tempo que você não vê seu pau subir?
Um pombo pousa no banco e vem comer na mão de um dos velhos. Ele o espanta.
- Porque fez isso?
- Se não fizer ele acostuma, e se acostumar os outros também vão querer que lhes dê milho na mão.
Uma das lojas não abrira, alegou falta de produto. A população em fúria forçava a porta de metal. Gritos eram ouvidos, gritos de protesto, de xingamentos, palavrões, e uma infinidade de elegâncias se ouviam nos arredores, a polícia foi chamada. Houve quebra-quebra, os camelôs aproveitaram para destruírem alguns estabelecimentos, muitos foram detidos, outros presos, Qual a diferença de preso e detido? É que um aceita o outro não. E na escalada de violência o confronto chegou cerca do banco dos senhores e dos pombos.
“No congresso foi aprovada a lei que limita a carga horária semanal para estudantes dos primeiro e segundo graus da rede pública. O que antes era de 25hs semanais agora passará para 20hs semanais, com a não obrigatoriedade do ensino das disciplinas de filosofia e história...” Informava o radinho de pilha velho de um dos velhos.
- Que negócio é esse? No nosso tempo a gente estudava cinqüenta horas por dia! Não por semana! Por isso que tem um monte de analfabeto por aí.
- E as lojas continuam lotadas... E as ruas? Olhe essas ruas? Essa gente?
- É o que o povo quer, só isso. Por isso prefiro os pombos. Por isso prefiro meu cigarro. Por isso não vou comprar merda nenhuma de viagra!
- Vai continuar de pau mole?
- Vou.
- Mas só por causa disso? Olha tem uma senhora que eu conheço...
- Não quero!
- Então o que quer? Morrer de vez?
- Porque não?
- Porque sim?
- Olha o pombo aí. Espanta ele!
- Xô! Xô!
- Vou levar meus pombos pra um lugar mais calmo.
- Vamos!
- E nem me fale em senhoras! Deixe-me cá com meus pombos.
- Assunto encerrado.
Aquela gente acordava sempre, sempre que pensava estar acordada. Cada vez mais comprando o necessário, cada vez mais desculpas, mil delas para irem às compras, cada vez mais e mais... menos indignação.
RODRIGO H.
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