Insubordinação mental
Assim que jogado o pão, minha mão foi pega por uma outra maior, não sei porque, pois o cão se deliciava com aquele cachorro quente que para mim estava demasiado azedo, havia até algumas tonalidades de verde naquela salsicha, acredito que era um aproveitamento do dia anterior, questões econômicas provavelmente. A mão estava fria, os olhos raivosos por trás daquelas lentes “fundo de garrafa”, seus curtos cabelos quase que se arrepiaram com meu ato inocente de alimentar um cão de uma singela casa contígua á escola, que problema haveria nisso? A raiva encrudesceu seu olhar colérico, que pecado era aquele de alimentar cão? Será que o se fosse outro animal o ódio seria menor. Em casa cristã cão se chama cachorro, essa palavra pronunciada pode ser pecada inquisitório. Pois alimentei um cão, não O Cão, sim um cão. Aquelas gélidas mãos apertara-me os braços e aos sussurros intradentários ela me disse.
- O que vc está fazendo moleque?
Não soube responder-lhe, um arrepio me subiu à espinha chegando à nuca, bateu em cima refletiu embaixo. Não pude ir ao banheiro, segurei. Aquelas pupilas dilatadas me fizeram temer pela vida, tentei justificar, argumentar, falar... Não pude. Falar nessas condições é quase uma flatulência a quem manda ouvir. A freira bedel encaminhou-me à sala da coordenadoria onde fui despido de todo tipo de orgulho, a bexiga inflou-se, novamente segurei, fui acusado pelo beato de insubordinação mental, pensei: que grave importância teria eu para tal acusação incompreensível? A acusação estendeu-se para assuntos já arquivados pela minha memória pré adolescente, desordens articuladas em sala de aula, cuja finalidades única era a perturbação do mestre, traquinagens com bíblias e santinhos espalhados pelo purgatório onde das freiras nos faziam rezar, cruzes de ponta cabeça. Coisas feitas por fazer, onde não havia um único autor, mas minha reles pessoa inspirava essas aversões sacerdotais, talvez pensassem que eu era budista ou comunista, talvez eu seria um exemplo, um bode expiatório, e tudo por causa de um pão e um cão. Adorava dizer cão para aqueles seres.
Nada mais incisivo aconteceu, mamãe teve de assinar uma carta de advertência, papai me bateu, mas aquilo já era rotina, acostumei-me, alçar vôo à minha defesa já estava no campo da metafísica, calei. Assumi o pecado. Rezei cem vezes o padre e mais cem aves Maria, o Salve rainha eu não sabia apesar da sentença paroquial, menti às irmãs do colégio que rezei, mas a minha dívida pra mim estava paga, deus não me cobrou um centavo. Mentir é tão necessário quanto a verdade em dias de chuva. Menti, mas nunca mais alimentei cães, só o cão, pois de nada resolveram as rezas. Ainda hoje me pergunto: qual o mal em alimentar o cão? Não alimento mais. Desalimentei a fé. Matei o cão. Em mim ficou o saber da pobreza da alma (alma?) humana. A pobreza dos olhos coléricos por uma certeza, a pobreza da humilhação, a falta de carinho consigo, a cegueira além dos óculos que faz enxergar o que quer ser enxergado. Uma tristeza só, no concernente ao espírito ou á falta de tal. Uma realidade compreendida a partir do entendimento e a sublimação da banalidade. Sublime arte, sublime parte de nós, aos que fazem aos que recebem. Jesus não me viu rezar, mas rezei, rezei com todo ódio que meu coração guardara daquelas frias mãos a me apertarem, de ódio das figuras desfiguradas que tardavam a morrer, que matavam a beleza juvenil em detrimento à rudeza senil daquelas velhas cruzes que faziam arquejar os pescoços daquele pequeno poder cristão. Amém ao papa.
Minha expulsão do colégio foi justificada por insubordinação mental, o que eu nunca entendi. Agora a ovelha pasta à distância, insubordinadamente pensa em como fazer e o que deveria pensar antes de alimentarem seu cão interior.
RODRIGO H.
domingo, 23 de novembro de 2008
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