Camomila
Alice levanta seus braços antes mesmo de abrir os olhos, de modo a esticar todo seu pequeno corpo, se espreguiçando contra a árvore em que se encontrara encostada, finalmente terminando o que talvez fosse um dos mais estranhos e envolventes sonhos que já tivera.
Ela ajeita e desamassa seus curtos cabelos pretos, abrindo seus olhos castanhos, ainda levemente aturdidos pela forte luz do sol. Ela olha confusa ao seu redor, sem conseguir se lembrar de ter se perdido tão profundamente no sono, ainda mais recostada à sombra de uma árvore.
Não uma garota urbana como ela. Em seus rápidos pensamentos, a primeira idéia que lhe passa é a de ter sido abduzida por algum estranho, como a realidade inescapável do destino que sua avó pregava quando viva, tão veementemente, em toda vez que falava sobre os perigos da noite como ferramenta funcional para manter a neta em casa nos finais de semana à noite.
Ok. Noite. Ela se lembra de ter saído, ela se lembra de ter bebido. Um pouco mais do que devia, ela confessa com certa culpa a si mesma. Mas até ai, ela sempre se julgou ‘forte’ para bebida, ao contrário das suas amigas que mal conseguiam segurar algumas taças de vinho dentro de seus também pequenos corpos. Alice busca em sua memória o garoto alto de cabelos castanhos e franja com quem passou grande parte da noite passada, e tenta isolar em sua mente qualquer momento especial onde ele possa ter lhe passado algo, um drink, uma droga que fosse, sem que ela percebesse.
Mas coitado, entre os beijos eles mal se falaram, e o cara nem bebia, todo cheio de pruridos fora as evidentes mãos bobas já esperadas. Não, ela conclui que deve ter sido algo depois. Algo entre aquele ‘What You Waiting For’, mas na versão com a melodiosa voz do Kapranos, e a leve recostada no sofá de estampa de zebra, numa súbita sensação de cansaço, a moleza inesperada em suas pernas.
Foco. Alice olha ao seu redor e realiza que se encontra sozinha em um infinito campo verde, aparentemente bem, sem nenhuma marca que remetesse a perda de um rim ou qualquer outro órgão de seu corpo. Seu celular, fora de área, repousava inerte em seu bolso, e ao seu redor, árvores espaçadas em um campo verde que vai até onde sua vista alcança. Inabitado. Como um filme de ficção científica.
Ficção científica definiria bem para Alice, o coelho que para em seus pés, trajando terno e monóculo.
“Você sabe que morreu, certo?”
O pânico de ouvir um coelho falante, tira todo e qualquer foco ou atenção e toma uma importância bem maior do que exatamente ele disse, transformando as pernas de Alice em duas varetas de gelo. Porém, o suor frio e a incapacidade de se mover desaparecem frente a um forte cheiro de.. chá?
“Haha. Que choque! Mas eu realmente sairia daí se fosse você, afinal, são cinco horas, o tempo urge!”
Alice ainda em óbvio choque, sem conseguir processar as palavras que o coelho profere com seu espantoso sotaque inglês, sente algo bater em seu calcanhar, o que a faz se virar, apenas para ser surpreendida por uma enorme mesa de chá. A toalha, de tão branca, ainda exalava um odor de limpa, mesclada com o saboroso cheiro de doces e bolos que eram apresentados de forma a cravar inveja na alma de qualquer vitrinista de confeitaria. Observar aquela mesa posta remetia a Alice memórias de uma época mais simples na casa de seus avós. Não que seus avós fossem coelhos ou tivessem sotaque britânico, claro.
Não que ela sentisse qualquer tipo de culpa pelo que fizera anos atrás, apenas um leve sentimento de remorso por dias perdidos e só. Tudo era uma questão de dúbios pontos de vista e o impopular descontrole emocional, mas sob sua impecável noção de certo e errado, Alice sempre preferiu se encaixar na primeira. Quando as coisas acontecem rápido demais, se perde a objetividade. Ninguém pode se culpar por algo feito quando claramente se estava fora de si. Seus avós não deveriam ter sacrificado seu coelho de estimação, em favor de um suculento guisado em uma noite fria de inverno. Talvez, dessa forma, ela não os teria assassinado após a sobremesa.
Mais um gole de seu Earl Gray enquanto os coelhos em sua volta exibem uma predileção por camomila. Ela não gosta, apazigua. Enquanto ela os observa e tenta imaginar quão apurado seria o paladar dos seus elegantes companheiros de mesa, Alice saboreia o chá das cinco, com gosto, e uma leveza de espírito que se exprime em um suspiro profundo antes de mais um gole. Ela realmente não sabe onde está ou se está sonhando, mas em seu chá, ela encontra uma tranqüilidade impar. Porque ela deveria se preocupar?
ANDRÉ OZ
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