O Totem Eterno
-Um engodo! Eis o que sois. Um engodo.
Anos antes da fala proferida Joelmir ganhara um prêmio, trinta e cinco milhões em moeda estadunidense pela loteria federal, Ganhei! Trinta e cinco milhões! Que maravilha! Ele um operário da indústria de calçados em franca expansão no período do milagre econômico brasileiro ganhara um valoroso prêmio, não quis saber sobre as vacas gordas que assolava o país, poderia largar tudo, largou emprego, casa velha, carro velho, velhos amigos, velha família, cachorro, esposa, sogra... Esposa? Vais me largar Joca? Não posso crer nisso! Meu deus olha o que o dinheiro faz com a integridade do homem. E seus princípios? E as juras de amor? E o compromisso selado diante do padre? Não me digas que virou da macumba também? Pois esses macumbeiros que têm mania de ir à Bahia falar com Oxalá ou sei lá o raio que o parta!, Joca iria à Bahia realizar seu antigo sonho de ver as belas praias do norte, assim se referia ao nordeste brasileiro, terra natal de seu bisavô, onde o sol sempre brilhava e as garotas andavam quase nuas, o carnaval era mais que uma carnificina e a comida apimentada era um elixir, uma ode a Eros. Um momento! Mas e a esposa? Acabou Ana! Acabou. Não quero mais! Vou sair, vou ver o mundo sem ti, partiu no dia seguinte rumo às praias baianas a começar pelo sul do estado, pretendia ir até a costa maranhense, quanto ao divórcio seu advogado resolveria tudo, não mais esquentaria a cabeça com Ana, afinal de contas eram dez anos ao seu lado, mas são dez anos Joca! Dez anos! Como pode! Vai jogar tudo assim pro alto por causa de uma viagem ao nordeste? Vou, Se você for será o dobro de gasto, gastando assim como poderei abrir meu posto de gasolina em Ilhéus? Posto em Ilhéus! Mas você nunca me disse nada sobre isso! Inventei agora, acho que será um bom investimento e não precisarei mais ficar colando sola de sapato pra capitalista nenhum, serei meu próprio capitalista, E quanto a mim? Fique tranqüila, terás uma gorda pensão, e saiu deixando Ana chorando ao telefone cujo choro sua mãe Jacinta consolava do outro lado da linha, E tem outra! Diga a sua mãe que vá pastar! E que nunca mais irá me encher o saco por causa de emprego! Passar bem.
Ana trabalhava em casa, sua renda se resumia a alguns doces que confeitava para festas infantis, a pensão seria uma maravilha para ela, não precisaria mais trabalhar, compraria novos vestidos, viajaria também e quem sabe não abrisse um comércio qualquer para que o ócio não lhe consumisse a alma, aliás teria mais tempo pra se dedicar à igreja e a ajudar os pobres coitados do bairro, cuja culpa lhe consumia a reza todas as noites para que deus lhe absolvesse o espírito, seu coração era bom, o problema era tempo para a caridade, “Ele morreu para te salvar”, estava grafado em sua porta. Durante semanas Ana mal comia, tomava coca-cola, disso não havia Santo Expedito que lha salvasse, o sono é privilégio para quem cansa, como não mais trabalhava, não se cansava, resolveu que sua alma seria salva pela abdicação ao repouso, fazer desnecessário a quem nesse estado assim está.
Seu sofrimento não alcançara dois meses, quando do recebimento da pensão espontânea de Joca, Cinco mil dólares por mês! Muito, bom, muito bom... Mas ainda está pouco, bom, porém pouco minha filha, Mamãe! Não seja boba Aninha, eu se fosse você lhe arrancaria até o calção, Eu tenho índole mamãe, a senhora sabe o que é isso? Pois eu possuo, tenho caráter, sou dos princípios de cristo, os mandamentos estão tatuados em minha mente, cinco mil dá, sobram e ainda posso me dedicar ao bem gratuito, não é porque Joca está (pois nunca fora) canalha que preciso me igualar, está, pois em dez anos de casamento sempre teve honestidade, Você é tonta, isso sim, o que já recebeu de deus até hoje? Um casamento arruinado por um bilhete de loteria cujo dinheiro não verá nem a metade, Não discuto com descrente, lamento.
Foi à Bahia, de tudo o que viu o turismo sexual lhe foi o mais aprazível, ninfas ao preço de banana, voltaria outras vezes àquele estado para dançar conforme a perdição dos trios elétricos e cantar o doce fado danoso à moral, Moral? Quem liga? E como fica Ana com isso tudo Joca? Ah Marcelo, tome uma e fique quieto! Tome, tome, compre um capeta e vá procurar uma qualquer que te agrade, sai de mim! Marcelo bebeu, bebeu bastante, tão bastante quanto Joca, ao ponto de acordar jogado no meio da areia da praia rodeado de siris a lhe espreitarem o traseiro, Joca amanheceu numa casa para meretrizes, preocupado com a Camisa-de-vênus, Usei? Claro meu rei, sou profissional.
Num período duo decênio, de 1976 a 1996, Ana recebeu religiosamente sua pensão e fez bom proveito dela de acordo com seus princípios cristãos, converteu-se ao neo-protestantismo toteniano, mais conhecido como totentantismo brasileiro, fundando um templo em 1992, Joca não comprou posto algum nem investiu sua gaita em nada, dedicou-se à luxúria e aos prazeres palatais da carne e do vinho, foi fiel seguidor de Dionísio, gastava tudo com quem lhe quisesse ajudar a gastar e consumir, abria a mão para quem lhe honrasse o cumprimento, do desjejum ao uísque matinal, a quem lhe agradasse traduzia os agrados em consumo. Findou, a fonte secou, encontrou Ana em sua “Igreja Petencostal do Totem Eterno”, prosperou, antes pensou em ser missionária no oriente, desistiu, ficou e arrecadou, Dna. Jacinta converteu-se ao totentantismo, recolhia o dízimo, logo apelidado de periódico pelos fiéis mais maldosos, na casa do senhor também há maledicências, fazia a contabilidade do negócio, Joca? Olá Dna. Jacinta, O que houve contigo? Que roupa é essa? Fali, a tempestade veio depois da bonança, Se fodeu! O diálogo deu-se no meio do templo, ninguém os ouvia, a conversa sussurrada, as palavras proferidas por entre as arcadas dentárias, num misto de ódio e pudor, se fodeu gos-to-so! Jacinta ria-se como os infernos, com o coração cheio de auto-piedade e salvação e a bacia aos tostões dos fiéis, Onde está Ana? Que te importa! Se quiser sentar-se fique à vontade, o culto já vai começar, dízimo? Não vê que não tenho nada mocréia? Jacinta novamente riu, A senhora se converteu é? Vá pra puta que pariu! Deleitando-se com a última palavra, Pariu! Num gozo jocoso, onde “pariu” tinha mais peso que “puta”, Deus está vivo, Ele existe e está no meio de nós.
Deu início o culto, Ana linda como nunca e vinte anos mais velha, aos quarenta e cinco parecia muito bem, quase uma obra de deus, Joca nunca entendera os padrões do belo, nunca lera filosofia estética sequer, nem nada a respeito das modas atuais. Foi ao acaso, recebera um panfleto falando sobre o totentantismo e como ele recuperaria as almas e os espíritos (por mais redundante que pareça assim estava escrito) degredados da civilização divina, ao rodapé do papel havia o endereço do templo, cujas instalações abrigavam uma ala para recuperação de adictos, droga e jogo, Joca necessitava ambos, mas ignorava qualquer possibilidade de doença venérea, no SUS a fila para um simples exame sangue já era contada em medida temporal. Ao término do rito, Joca! Ana! Que surpresa agradável você nos visitar, já se foram uns vinte anos, quais as novas? E as andanças pelo mundo? Me perdoe Ana, Águas passadas, Não estou bem, soube que aqui vocês cuidam de dependentes químicos e jogadores compulsivos, Sim, cuidamos de uma infinidade de moléstias do corpo, mas sobretudo as da alma, aqui são todos bem vindos, cheiradores, maconheiros, viciados em crack, em jogo, palmeirense, corintiano, tudo! Sem exceção, ajudamos todos Joca, com você não poderia ser diferente, mas é necessário que passe por provas de aptidão, topas? Tenho escolha? Não, mas me conte sobre suas aventuras, Não me perguntes sobre o que passou, O tratamento começa pela gênese do paciente, vamos diga, mas como já sei de boa parte comece pelos últimos dez anos, Não faça isso Ana, por favor, me expulsaria antes do terceiro parágrafo. Joca fora submetido a um tratamento intenso chamado “Lavagem inforracional”, onde o paciente era exposto a uma carga horária de doze horas diárias de televisão num período de um mês até que perdesse boa parte dos sentidos, no início o coração ficaria na boca e os sentimentos expostos a quem quisesse vê-lo, assim o que não fosse interessante à prosperidade da igreja seria exumado e posto numa gaveta intocável, deram-lhe banho, água potável, comida, roupas novas, à noite sempre havia um sopão e café com água e sal pela manhã, à tarde a enfermeira lhe aplicava uma injeção que o fazia regredir a um estado semi-infantil, como quando os humanos e os símios eram quase parte da mesma raça, sob efeito da droga regressora Joca e os demais adictos cediam à cruzada inquisitória para catequização dos suscetíveis à maledicência, mas ele não cedera aos efeitos psicotrópicos da injeção inquisitória, Joca jamais contou o que passou, mas Ana soube de cada pormenor, em frente à TV ele se diverte com a sortida gama de produções televisas disponíveis no controle remoto, às vezes lhe é liberado o vídeo game, Ana observa tudo pela pequena janela 10cm x 20cm que dá para o corredor, numa idéia horizontal do recinto seus olhos rodopiavam desviando-se do devaneio que seria a lembrança do que um dia foi o amor de sua vida, sua vingança estava fria e pronta, para dentro o mundo só faz quebrar cada vidraça de artéria espontânea, a dor da ausência não finda com o retorno do objeto saudoso, como um rato in vitro Joca ali estava em sua caixinha, nada anormal para a realidade da sociedade capitalista, o que antes caixa de sapato ou prêmio de loteria, agora clínica de recuperação com TV a cabo e sopão, o contemporâneo é assim cada caixa escolhe seu conteúdo descartável em sua quimera optativa em função do próximo passo, num caminho arquitetado sempre antes do primeiro nascimento da geração vindoura, deduz-se que escolhe o que escolheu, Porque te falaria o que passou Ana, em que te importaria minha ninharia egoísta? Joca, eu preciso saber até onde o dinheiro vai me levar, somos muito parecidos, por isso fomos casados, somos o que aqui interpretamos, somos a ausência do que fomos, tudo o que amamos e os amores que não conhecemos, o mesmo resto, o mesmo pó sob as patas do ácaro que te infecta com alegria, minha droga é a droga de deus que a grana comprou, sua droga é a grana que a droga comprou, diga-me, necessito saber!
“Ele morreu para te salvar”, estava assim escrito em todas as portas de todas as salas, inclusive dos banheiros, do templo da “Igreja Petencostal do Totem Eterno”.
RODRIGO H.
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