Remédios antiácidos
Era tempo já não se viam. Primaveras a fio e a ausência tornara o costume prática de cada dia, o tempo deus era senhor, como Cronos devorando seus filhos e os regurgitando em forma de pedras, os sentimentos assim ressurgiam num nostálgico memorial construído a reminiscências fraternais. Muitas canções, outras orações, fés cegas e crenças perdidas fazem a brincadeira da vida um sério exercício de lágrimas e risos.
Era uma bela foto aquela em preto e branco cujo olhar olhava com seus olhos negros quase africanos. Ela chorou. Poucas lágrimas bastaram para a tradução daquelas sentimentalidades inúteis à prática diária do fazer laboral, eram as inexplicáveis saudades da língua portuguesa. A culpa era da língua, nascera lusófona como a mãe.
Quinze anos na Europa mudam as pessoas, às vezes não se reconhecia em tais comportamentos frios que no passado julgara desumano. Deixou o Brasil aos dezesseis anos, uma criança, agora com seus trinta e um anos completos trabalhava no que sempre sonhou, passava o dia na bolsa de paris ganhando a vida com especulação de papéis. Sua rotina frenética não lhe permitiu laços estreitos com homens tampouco com mulheres, nem sabia mais ao certo sua preferência. Seu maior prazer era o sorvete de chocolate após o almoço, Ah o sorvete!, mais uma rotina dentro da rotina, mas aquela se derretia mais rapidamente, Que problema o tempo perdido pra lavar as mãos após cada sorvete! Compensa-lo-ia com outros lucros. Após dias de nula diversão resolveu: iria a um café contíguo à bolsa logo do fim do pregão acompanhada de seu moderno I Phone. Ah que prazer inenarrável aquele cheiro! Cada gota do líquido filho da revolução industrial era-lhe degustado como noz-moscada ou canela para o tempera daquela Europa renascentista.
De volta à sua casa a dor lhe mataria, era no estômago, gastrite, úlcera, café... O que seria aquela dor? Encontrou o retrato à procura de remédios antiácidos. A foto aguçou-lhe a dor, esqueceu-se do emplastro, do café, do pregão... Afixou olhar em si a partir daquela imagem análoga a Carlitos. Era cena de um filme mudo, o quarto ao redor banhado à sépia, cores primárias presentes só por dentro, onde as câmeras da representação não atingiam. A acidez da vida lhe pegara admirando a imagem da imagem própria, era seu sentimento ao lado dele, aquela longínqua figura de sua infância renascera sem vida num objeto inanimado e velho, doía mais que quando de seu fim. Seu amigo desaparecera, à época eram quatro anos de diferença, foi-se sem um último abraço. Uma discussão irascível acerca de infortúnios infrutíferos foi a causa, não da morte, do não-abraço. Morrera num cruzamento dia seguinte voltando dum lugar qualquer cuja memória lhe bloqueara a lembrança. E nem um abraço... Transcendera o amigo ficou uma imagem, dele? Dela? Um reencarnado noutro, como Quincas Borba ou Jesus Cristo feitos à semelhança do pai, uma constante continuidade. Nela vivera o que havia de bom e de não muito bom nele, como preferia se referir às veleidades do amigo, mas as poucas lágrimas derramadas regaram a falta de cores daquele retrato, tornando à vida o que a vida matara.
RODRIGO H.
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