terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Tema 6 - Silêncio

The Ballad of Sad Silent Hearts


O terno nunca lhe pareceu tão incômodo.

A gravata lhe enforcava como nunca antes. Seu pescoço se encontrava marcado pelas crescentes e incessantes investidas de seus dedos, afastando e alargando aquele colarinho apertado que parecia se contrair a cada respiração profunda e repleta de anseio em seu peito.

Formatura. Ciclo completo. Todos os desejos, vitórias e decepções que se acumularam por quatro anos, ganham a sua cereja num bolo nostálgico, destroçado a ferozes garfadas a cada figura desse passado recente que passa por você. Com ele e com ela não era diferente.

Eles passaram por tantas coisas juntos nesses últimos quatro anos. Dramas que prolongam e definem parágrafos, preenchem poemas e inspiram letras escandalosas de rock ‘n roll indie. Sempre acompanhados, mas nunca um com o outro. Exceto nas noites onde o calor e os corações falavam mais altos, e os encontros escondidos prometiam uma tradição que nunca se realizara.

Apesar disso, os outros eram os outros e sempre foram só os outros. Eles se encontravam, entre idas e voltas, chegadas e saídas, como ninguém mais conseguiu nesses fadados quatro anos. Agora, nesse ciclo completo, finalmente o destino parece dar o braço a torcer.

Calma”. Resume toda a idéia que ele repete a si mesmo como um mantra, na provável décima-quinta vez que vai ao banheiro, seja para arrumar o colarinho amaciado pelos seus constantes ataques, seja para retocar mais uma vez seu cabelo, em busca de uma simetria assimétrica inatingível que desafiaria a perfeição grega.

Impaciente. Mas uma impaciência boa. Gostosa. A ansiedade de subir em um pódio, champanhe em mãos. Do primeiro acorde da primeira música do primeiro show. De esperar a garota da sua vida descer por entre os degraus acarpetados de um salão, tapete vermelho, intenso como o sangue que entra em ebulição nas suas veias ao contemplar essa visão.

Ele quer se entregar às alucinações e enxergar flores de lótus que imagina se abrindo a cada delicado passo no caminho dela. Todas as declarações já haviam sido feitas a menos de 24 horas atrás. O timing fora perfeito, justamente quando ele e ela finalmente estavam solteiros juntos. Desimpedidos e prontos. Tudo que faltava era o glamour da formalização.

Suas mãos se encontram, seus corpos se aproximam, e o apaixonado beijo que atrai os olhares de todos faz toda a inquietação ceder lugar a resplandecente calmaria das sensações. Ela literalmente o arrasta para a pista, em um mix de súbita timidez frente aos olhares de comemoração dos amigos e conhecidos, com a necessidade e a desculpa de estarem mais perto, mais juntos.

É somente no “precisamos conversar..” que ele repara que algo não está tão certo.

Ela hesita como se pudesse, com sua eterna e característica indecisão, congelar o tempo até que a melhor forma de falar o que precisava ser dito pudesse ser concebida. Infelizmente esse era um poder que ela não possuía, ao contrário de seu inabalável senso de oportunidade. Não era questão de achar uma hora melhor. Simplesmente não haveria outra.

Ela conta e seus olhos chegam a lacrimejar. Até ontem declarados, hoje a mão pérfida do destino se faz presente na forma do ex-namorado. O primeiro, eterno ex retorna e com ele promessas de ares internacionais e realizações de sonhos que não poderiam encontrar hora mais desagradável para serem realizados. Mas sonhos são sonhos, cujo propósito de existência é a própria realização, independente dos desejos alheios a serem atropelados no caminho.

Toda a perfeição e sincronia do momento cedem lugar à fúria e frustração insana ao constatar que tudo que restaria aos dois seria aquela noite, aquela festa e aquela pista. Nada mais precisava ser dito. Não havia necessidade ou razão, quanto mais tempo. Naquela que foi a última dança, seus corpos estavam mais juntos do que nunca antes. Naquele último beijo, o silencio falou por si só.

ANDRÉ OZ

Um comentário:

Kéroly Gritti disse...

um bom motivo pra tudo atrasar. ou nunca acontecer.