Areia
Era a terceira vez que virava a ampulheta, a areia trocava de lado a cada hora, num canto da sala branca e vazia uma pétala flutuou até tocar o chão de madeira velha onde alguns cupins saboreavam seu café, a rosa envelhecida espalhava sua tristeza ao redor. No centro do amplo recinto ela chorou, chorou com uma lágrima, mas chorou. A vã lágrima solitária se juntou aos restos de rosa e madeira compondo um mosaico único de humanidade visceral. Era cair da tarde e poucos raios do ocaso transpunham as venezianas da nostalgia daquele apartamento. As mentiras passam como as verdades e no final, representado pelo presente, o que resta é sempre só o que resta, nem o vazio das palavras basta para amenizar a memória, a lembrança, a vida dói de dor de vida, mas passa, passa para que outra vida venha mesmo que similar à anterior. Não se vive de frutas ou de carnes, se vive de alquimia. O espaço-tempo questionado a partir do espaço da fenda das reminiscências vindouras atuava em sua tragédia grega da eternidade da prisão dos sentidos humanos.
O tempo passou, se foi também para ela que sonhara viver eterna adolescência. O resto de suas coisas já tinha ido com o caminhão-baú, dirigiu-se ao criado-mudo (único móvel que fez questão de levar consigo), onde seca flor despetalada. Na gaveta fotos e objetos pequenos, pingentes, brincos, batons, etc, lhe traziam lamentos sobre as belezas passadas. Fotos lindas, ainda que feias, moldavam seu olhar abatido pelo instante. Seu telefone celular tocou, estava tudo certo a nova casa era linda, seu esposo já providenciara tudo pra sua chegada. Isso aos trinta anos parece reles vivência ao espectador que um dia chegara lá, mas para ela era a dor do tempo, a dor da despedida. As fotos trazem notícias do que se é, e isso invariavelmente acarreta dor de alma, coisas incuráveis até pelo tempo ou pela distância ficam cravadas nas imagens pigmentadas num papel. Basta rasgá-lo. Coisas de morte e de vida chegam pra sair, e sempre saem, não tem remédio. Coisas chegam, coisas ficam, mas pessoas vão com ou sem razão, vil ou vício vão, um vem outro vai, e quem vai leva consigo o que fica.
A ampulheta iniciou nova contagem, a casa era ampla e cheia de cômodos, o findar do seu casamento deu-se dias antes. Pela quarta vez ela contava o tempo, nove anos antes subia ao altar da igreja de Santa Clara para pedir as bênçãos do padre e de seus pais para a continuidade da raça. Findou. A casa continuava grande, mais lágrimas do que flores, dessa vez era tudo lindo em volta dos olhos, menos o borrão de sua maquilagem. Se aos trinta fora duro sair da casa onde a companhia da solidão lhe afagava o peito, mais dura e compreendida essa nova despedida. Aos trinta e nove e sem nunca ter lido Balzac essa bela balzaquiana juntava seus novos cacos de um chão sem pétalas para compor o que viria. Na lâmina d’água do lago em frente, sua imagem narcisista se desfazia pelas marcas de expressão e rugas que não cessam em surgir, a vida marca o tempo que passa por ela á sombra da vontade humana, um peixe saltou, rodou a ampulheta, era hora do almoço.
Uma bela criança! Era assim, linda como toda criança ao nascer e aos olhos dos pais, por mais joelho que se pareça, continua inenerravelmente linda. Linda como o cordão umbilical, linda! Quando nasceu era assim, mas os pais não tinham mania de ampulheta, não se preocupavam com o futuro e o futuro os levava para o futuro e para a eternidade da ignorância, a simples ignorância de ignorar. Aos dez queria viajar no tempo como Einstein propusera, queria conhecer esse tal maluco. Aos dezessete não passou no vestibular para física da universidade de São Paulo. Tentou mais três vezes, a ampulheta girou outras zil, mas limitou seu conhecimento a revistas especializadas e alguns periódicos.
O ventou soprou na praia levantando areia, deslocando o que estava no chão, entre areias e pedras e sujeira, o que ficou pra trás ficou... O trem parou na estação. Entraram os passageiros. A estação vazia ficou, o espaço e o tempo se encontraram no que havia quedado. Uma pausa. Parou! E o resto continua porque o indefectível olho humano continua a olhar, o que não se olha não se vê. É onde reside o silêncio de Cronos, quando deus descansa, é a ausência de corpo, não há dias, não há decênios, qüinqüênios, milênios... Não há nada. A pausa da morte. O findar é o infinito no instante seco, parado, turvo, embriagado. Já parastes alguma vez? O tempo pararia junto, o espaço desvanecer-se-ia. O que existe, existe por engenharia frustrada. Nem Cronos, nem Cristo saberiam responder em que se está inserido. Oxalá!
Morreu aos cinqüenta e dois, e daí? Em seu túmulo jaz como outro jazeria em outro túmulo qualquer. Seus filhos lhe depositaram em lápide sua ampulheta vazia.
RODRIGO H.
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