O Puro Nu
Entrou na sala com seu traje de gala, a tarde ainda era pouca, esperaria até o início do evento, colocara-se só sentada ao centro daquele ambiente de luz turva apesar do externo sol escaldante do verão tropical. Nenhum samba, nenhuma ode a si mesmo, nenhum nada, ademais daquela luz gótica a adentrar o recinto entre as fendas das cortinas semi-cerradas. Não havia ninguém na casa, adaptou-se bem à plena solidão da desintegração familiar, despiu-se em frente à janela ainda acortinada, abriu o pano deparando-se com verde mar defronte, desejou mergulhar nua na primeira onda que quebrasse em seu ventre opaco de aborto juvenil, quando do complemento de seus dezessete anos, quinze anos antes. Pernóstica, vislumbrando o mundo além de si, percebeu-se como quem vê o resto, o externo era ela além do mundo, um olhar apurado para o que não se explica por vãs palavras, vãos pensamentos fúteis sobre a beleza ou a estética como filosofia moral, nada apesar de o nada sempre estar próximo de sua representação físico-corpórea, presente em suas relação amistosas, em seus passeios urbanos, em suas refeições vegetarianas, em seu café, em seu eu.
Fugiriam-lhe as palavras do que fora recebido pelo olhar e toda conotação explicativa do que é perceber o mundo pela pele, o tato é um justo sentido quando do sexo ou da dança, contudo furta-se o conhecimento ao abrir dos olhos, ao ruído de qualquer manifestação súbita de ente natural doentio. Era nudez de roupa, não de vaidade, o espelho lhe sorria, era bela mulher de trinta e dois anos, delgada como a moda e a medicina lhe disseram ser ideal, assim era melhor, não passaria vergonha ao adquirir vestido ou roupa íntima, para tal definição física nunca fizera nada além de sua dieta vegetariana o que pra ela era natural, desde pequena rejeitara qualquer tipo de carne, apesar de os avisos paternos, O cérebro humano é um órgão muito exigente, ele só consome proteína, e sabes onde encontrá-la? Já crescida e com as palavras que seu pai repetia toda janta, no almoço era cada um por si, matutando em sua mente, o costume lhe fez degustar peixe, toda semana, na sexta-feira, havia um peixe diferente, linguado, tainha, salmão, robalo, cação, dourado, tudo de acordo com o conselho do peixeiro, Peixe deixa a gente astuto sabia? Sabia, se até Jesus multiplicou peixes e pães, sabia tudo, mas nunca soubera o prazer da nudez desinteressada. Dirigiu-se à cozinha, apanhou a leiteira de alumínio, asseou-a com água lavou-a um tanto mais com detergente, encheu-a até a boca com água e acendeu o fogão, deixou o escasso líquido exposto ao calor até chegar aos cem graus celsius. Ferveu como aquela tarde, Alô! Suzana? Letícia? Oi amiga, ta em pé ainda, Sim claro, esteja aqui às cinco. O dia passou, a água esfriou, não saiu de casa o tempo todo, leu futilidades, atendeu outros telefonemas, outros camaradas, assistiu TV, foi à janela, na internet pesquisou sobre praias de nudismo nas cercanias de sua casa, nada encontrou, continuou nua até às zero horas quando um vinho abriu seu apetite pela vida, comeu salmão, era sexta-feira de salmão, salmão fazia bem, melhor que alface, melhor que feijão, Viva o salmão! Gritou de si para si, os vizinhos, os que não tinham caído na noite, dormiam, despreocupada com isso ligou o som num volume acima do médio, quase alto, era uma música frenética meio eletrônica, meio acústica, uma nova loucura da pós-modernidade, correu ao armário a procurar seu vestido prata que ficava colado ao corpo exibindo o que ela adorava exibir, sua auto-suficiência, vestiu-se, dançou, se divertiu na companhia da bebida dos deuses e dos padres, Ouviriam os sacerdotes música alta dentro dos mosteiros à meia noite regados a vinho e vestidos prateados? Quem sabe... Cansou de seu óbvio ululante, ainda vestida e embriagada tentou abrir o chuveiro, por duas vezes escorregou, caiu, cochilou ali mesmo por alguns minutos, arrancou o vestido e ligou seu banho, deitou-se sob água fria deixando-a cair sobre a cabeça, passou a embriaguês, ela deduziu, secou-se e nua se deitou no meio da sala com a janela aberta às duas da manhã, o vento soprava refrescante casa adentro, sentiu prazer ao ser tocada por ele nos pés, pernas, púbis, ventre, seios, pescoço, rosto e sentiu seu cabelo cada vez mais seco com suave perfume marinho.
A campainha tocou, levantou-se do chão, eram quatro e meia da manhã, com sua vaidade exposta dirigiu-se à porta, no caminho tropeçou, caiu, levantou, o vinho ainda estava em sua companhia, O que é isso Su! Mas Letícia ainda é madrugada, o que faz aqui? Esqueceu do chá, eu já dormi assim, é bom, Hã, do que está falando Leca? Mas para abrir a porta no mínimo uma calcinha né, Ah é, é bom sabia, porque não experimenta? Em casa eu também fico assim de vez em quando, Mas porque não experimenta agora? Como assim? Sem malícia, experimente ficar nua comigo vamos, Nua, nua? Peladinha, isso, vamos tire essa saia, essa blusa, Mas os rapazes vão chegar logo! Ah é, o chá né? Esqueceu que tínhamos marcado às cinco né? Esqueci, to de ressaca, Saiu ontem? Não, tive um instante de auto-conhecimento regado a vinho e solidão, Ta explicado, então vá se trocar que o pessoal já está pra chegar, Não, tire a roupa! Como assim? É isso mesmo, tire, decidi que todos ficaremos nus, quero medir a coragem dos meus amigos, Ta bom louca, Letícia ficou nua e foram ferver a água, eram esperadas mais cinco pessoas, três homens e duas mulheres, Chegaram! Será que falta alguém, não importa, não gosto de me atrasar.
Espantados com aquelas garotas nuas dois homens não entraram, tiveram receio, medo, desejo, vergonha tudo ao mesmo tempo, à exceção de Célio, Nuas vocês são ainda melhores sabiam? Sabia, Eu não, sempre tive celulite, Letícia era mais uma dessas mulheres complexadas com o corpo apesar de sua beleza estrutural, Pois as duas são lindas, cadê o resto do pessoal? Acho que seremos só nós três, Carlos e Jurandir fugiram como você pode testemunhar, Janaina e Beatriz mandaram uma mensagem pelo celular dizendo que estão indo dormir, beberam muito na balada. Apagaram o fogo, o chá estava pronto, tinha pra vários gostos, mas todos acharam mais prudente tomar o de camomila pela eventualidade da nudez coletiva, Sabe como é né, melhor prevenir do que remediar, a essas palavras de Célio Suzana levantou-se para pegar umas bolachas caseiras feitas pela avó que a visitara na semana do natal, ela quem lhe disse acerca das praias de nudismo da Paraíba e ao que parece ficara latente em seu subconsciente, Célio quer bolachas? Por favor, Pra mim também, disse Letícia, na normalidade daquela formalidade amistícia Célio bebeu, Letícia bebeu, sentados no chão ao redor da mesa baixa, às cinco e trinta e dois, brindaram à naturalidade da pureza sensual, nus não haviam o que esconder, ao ver a marca na bunda de Célio, O que aconteceu? Apanhei, Mas porquê? Nada demais, Mas está roxo Célio! Eu pedi, calaram-se as duas, beberam outros goles, o chá esfriara um pouco, Querem Mais? Eu quero de erva doce, tem? Eu também replicou Letícia, Leca me ajude com a água, pretexto esse para uma rápida fofoca, não sabiam elas que homens também gostavam de apanhar, Um tapa de leve ainda vá, mas deixar o outro roxo é demais, “O poeta é um fingidor/ Chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”, Era assim a estrofe do Pessoa? Ah Leca como vou saber dessas besteiras poéticas deixe-me cá com minha nudez, Precisa ler Nelson Rodrigues, Preciso é esquentar essa água, me passe o bule! Estranho o Célio não, eu não o conhecia muito bem, Eu também não, Demoraram meninas, Célio Você é gay?
O sol fez o dia amanhecer estranho, um mormaço insuportável, após um mergulho na praia Célio voltou ao seu velho karmanguia e pegou a estrada para São Paulo, Letícia adormeceu ainda no sofá da sala, seus seios pendendo para lado direito não deixaram Suzana dormir em paz, estava em dúvida se lavava a louça ou ajeitava sua amiga no sofá, o chá que iniciara às cinco terminou culpado pela transparência na dúvida humana sobre o humano, o café da manhã não foi servido, Letícia se foi antes do início do entardecer posterior enquanto Suzana ainda dormia, acordou às dezessete horas, banhou-se, vestiu-se e ligou para Célio, ao pedir desculpas, Por isso sempre neguei encontros furtivos com as mulheres, vocês sempre querem saber mais do que necessitam, Estou arrependida Célio, venha pra cá no fim de semana para esclarecermos a situação, Não, pra mim já está tudo bem claro, tem a noção do constrangimento que me fez passar? Sua retração não lhe permitia dizer o mínimo que se diz sobre as paixões masculinas a uma mulher, acabou sua esperança de continuidade da espécie, desde a adolescência Suzana fora o amor de sua vida, ao vê-la despida, impudica e sem malícia, deixou de desejá-la, deixou de querer dizer o que sempre quis, deixou de querer despi-la, alterou sua vida num rompante de clareza, desejou Letícia, Suzana despida era a imagem do fim, era o que faltava, o chá. Já bebera cerveja, cachaça, refrigerante, café, uísque, suco, mas chá era a primeira vez, E nua!
Suzana e sua auto-suficiência não foram suficientes ao baque, supriu a ausência com maquilagens diversas, gastanças no shopping e bebedeiras com as amigas, trocava de homem quando lhe dava na telha, mas o vazio ficou. Jamais quis saber de praia de nudismo novamente, pegou asco a chá, e se não estivesse sonhando antes de às cinco badaladas do relógio não mais sonharia. Nua agora só no chuveiro e no escuro, aprendeu a ler Pessoa, pois a leitura se aprende assim como se aprende a comprar, a beber ou dançar, a leitura deve se fixar no cotidiano, para que o cotidiano viva a leitura junto da cerveja, do mar e das trevas.
RODRIGO H.
2 comentários:
o ponto final quase não faz falta. não fosse pela inquietação de ver que ele não existia em nenhum dos supostos fins. curti.
Mas afinal onde estariam esses supostos fins?
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