quarta-feira, 2 de março de 2011

Tema 23 - Pegação no trabalho


14:35 – Toca o telefone...


- Oi, saudades de vc...

- Eu tb... não vejo a hora de sairmos daqui.

- Calma... em 4 horas a gente sai e, aí, a noite é uma criança...

- Aiai... preciso agüentar até lá para vc me levar às estrelas?

- Precisa gatinha... precisa.


16:03 – Chega um sms.

- Não agüento mais... vou subir aí.


Eu ligo pra ela e sussurro.

- Não! Sossega que daqui a pouco te dou um sossega leoa.

- Hmmmm.... jura?

- Juro. E se vc se comportar, vou sugar toda sua energia...

- Ah.... mmmm...


17:12 – Ela chega na minha mesa.

-Não tem jeito, não agüento. Te quero agora!

- Vc enloqueceu???? Ta cheio de gente aqui!

-Tá, mas não me importo. Só quero te sentir... ser possuída por você.

- Daqui uma hora gente sai!

- Tá bom...


17:45 – Ela liga.

- Me encontra agora no banheiro de deficientes...

- Vc endoidou de vez?

- Sim... estou completamente alucinada por vc... Vem logo ou vou pegar o primeiro cara que passar aqui...

- Tô indo...


17:49 – Eu chego... Ela me joga para dentro do banheiro e num movimento só tranca a porta e abre a blusa...

A tensão e o medo de ser pego são enormes... o que nos deixa ainda mais excitados...

Tudo é rápido, silencioso e frenético.

Os hormônios vão às alturas, me sinto como um moleque de 15 anos...


18:05 - Chego na minha mesa, meio descabelado, meio amarrotado, mas ainda dá tempo de ligar para a secretária:

- Dona Matilde, a sra já enviou os memorandos que pedi?



Luciano

Tema 23 - Pegação no trabalho

Bolo e Café

Nada mais estranho que a animalidade humana. E nada mais humano...

Certa feita vi um cão, um cão e sua matilha, sua matilha e sua ninhada. Vi o que via em
qualquer esquina, vi o que via em qualquer família de hominídeos. Vi e continuaria vendo pro
resto da vida desde que almejasse que à vida um resto fosse guardado. Via e olhava ao redor.
Desci uma ladeira, o sol a pino me esquentava, fervia minhas espaldas, fui de camisa preta,
diria até no auge da minha alucinação de veraneio que era feita de um preto mais escuro
que os outros, quase uma frigideira de teflon, faltando só o ovo a ser estalado. Caminhei e
caminhei, até chegar à porta do meu escritório.

Meu escritório ficava à Rua Major Diogo, próximo ao minhocão. Muito trabalho
naquele dia chegara à minha mesa, e assim deveria ser, pois eu era o dono, o faxineiro, o
pedreiro, e o executivo mor, e o cara que colocava trabalho na merda da minha mesa naquela
espelunca. Espelunca não! Escritório! Respeito é bom! Essa vizinhança ainda me enlouquece!
Sempre resolvem chamar meu escritório de espelunca. Naquela semana de Janeiro resolvi
diversificar meus negócios, contratei mais free-lancers para atender à crescente demanda que
se revelava apesar da crise. Há coisas, como comer, que não há crise que diminua a demanda,
talvez a oferta, mas a demanda jamais! Aí era onde se inseria meu famigerado afazer.

Trrrrrriiiiimmmm (campainha). Sônia chegou.

- Bom dia Sônia, como está bonita. Porque não passa um lápis nos olhos pra ficar
perfeita?

- Perfeita eu! Quê isso Seu Carlos.

- O trabalho tem dessas coisas minha querida. Quem não almeja a perfeição?

- Assim você me deixa acanhada Seu Carlos.

- Enfim... Tenho trabalho pra você hoje. Quer?

- Rua Aurora 275. Procure por Silvio ou Silvia, são gêmeos. Não vá se confundir heim!

- O devo fazer? O de sempre? Qual dos dois devo privilegiar?

- Mas qual atendo primeiro Seu Carlos?

- Já disse que não faço isso! Gosto de ser valorizada pelo meu ofício, se sair algo err...

- Te pago o dobro - Interrompendo-a.

- Às 23. Leve seu espartilho pras coisas sairem perfeitas. E não se esqueça do lápis!

Saiu e foi se arrumar ainda mais, o espartilho negro combinava com a ocasião. Dois de
uma vez só! Não vou agüentar. Apesar de que uma é mulher, assim poderei penetrá-la com
mais facilidade, normalmente nós mulheres relutamos menos, a fragilidade do corpo nos fez
assim. E de mais a mais estamos mais acostumadas com as dores misturadas ao prazer. Os
gêmeos só ficariam em casa até as 23h15min, era aniversário deles e comemorariam num
boteco no Arouche, caso Sônia não chegasse a tempo o trabalho que teve para pintar os olhos
seria em vão.

Chegou às 23:07, Silvio já estava quase pronto e Silvia colocando a calcinha nova para
a ocasião, provavelmente Diógenes estaria à sua espera no boteco para comemorarem juntos.
Sônia não teve trabalho para arrombar a porta, pois estava aberta. Ao fundo, perto da janela,
Silvio se perfumava, saindo de um quarto à direita Silvia com um pé descalço e o outro a ser
calçado por um sapato roxo de 10 cm de salto precipitou sua presença. Abriu a blusa e o corpo
que habitava aquele espartilho de azeviche somado à estupefação do ato fez de Silvio um ser
inerte, frágil e a primeira vítima. Do seio esquerdo Sônia sacou uma faca afiada, tipo Rambo,
e atacou a uma distância de 5 metros, atingindo o centro da testa, entre os olhos, o 3º olho,
a consciência hindu, Silvio caiu inconsciente. Silvia tentou a fuga, mas Sônia a atingiu com um
golpe de punhal no baço que sacara do outro seio. Silvia foi poupada por alguns instantes,
Sônia deliciava-se com a resistência da dor feminina, mas estava a trabalho e regozijava-se de
seu profissionalismo. Deixou-a ao solo a gemer enquanto retocava a maquilagem no espelho
do banheiro, o lápis estava decomposto, Odeio lápis! Retornou e com um tiro no meio da testa
finalizou com o pouco de vida que restava em Silvia, Silvio moribundo morreria com o tempo.
Bateu a porta ao fundo e despediu-se deixando um pedaço de bolo de laranja e uma jarra de
café no criado-mudo.

- Tome o envelope, deposite na conta do Rio e vá pra Copacabana na terça, lá estará
Sérgio, um outro cliente. Esse é grã-fino, portanto capriche no lápis.

- Puta que pariu Seu Carlos! Detesto lápis!

- Pode me chamar de Carlos Sônia.

- Eu num gosto desse troço no meu olho... Carlos!

- Então não precisa, basta o espartilho, aquele que te dei, não o preto.

Deitaram-se à mesa do escritório, o único lugar não úmido do local. Do espartilho
Sônia sacou dois lindos seios a refletirem a luz fosforescente que deixava a conta mais barata
e se rasgaram as outras peças de roupa. No dia seguinte não se viu Carlos chegar ao escritório,
pois não havia saído. À mesa seca um bolo inteiro de laranja e uma jarra de café mataram a
fome dos investigadores.


Rodrigo Romera

Tema 23 - Pegação no trabalho

PEGAÇÃO NO TRABALHO

Primeira segunda-feira do horário de verão, esqueci de adiantar o despertador, acordei com uma hora de atraso.

Correria total! Café da manhã? Nem em sonho!

E trânsito, muito trânsito... E calor, muito calor...

Cheguei ao trabalho, elevador quebrado. Ok, estou precisando mesmo de exercícios (sete andares de escada).

Entrei na minha sala, aleluia!

Em cima da minha mesa um recado: “Já são 10h, onde você está? Me entregue um relatório dos nossos projetos em andamento até a hora do almoço. Ass: Miranda (chefe ‘boazinha’)”.

Como assim? Socorro!!!

Ligo o computador voando para pegar todos os dados do relatório e, de repente, uma mensagem curta e grossa aparece no monitor: “Devido a problemas na tabela de partição do HD seus
arquivos não podem ser acessados”.

Reação: cólica, piriri, choro...

Cinco minutos depois: ligação desesperada para o STI.

UFA! Eles vão me mandar um técnico...

10 minutos e nada.

15 minutos e nada.

20 minutos e nada.

25 minutos depois, surge alguém na porta.

Fui levantando o olhar devagar, nossa ele é alto, hum ele é negro, meu Deus que homem é esse???

Ele era uma mistura de Seu Jorge, Tony Garrido e os jogadores da NBA (os melhores deles). Lindo, lindo, lindo!!!

De repente a minha sorte começou a mudar...

Ele disse:

- Carolina.

- Sim.

- Sou o PAUlo, técnico de informática, foi a senhora que abriu um chamado?

- Sim.

Para qualquer outra pessoa eu teria dito que senhora é a vó, mas para o PAUlo eu só conseguia dizer sim, sim, sim...

Ele se sentou na frente do computador e em cinco minutos ele resolveu o problema, já se levantando, ele começou a me explicar o que tinha acontecido com o computador.

Mas eu não conseguia prestar atenção em nada, só ficava imaginando aquela voz grave falando coisas ao meu ouvido (poderia até sobre informática, nem me importaria...). Imaginava aquela
barba por fazer arranhando a minha nuca, aquelas mãos enormes apertando a minha bunda. E não agüentei, tive que perguntar:

- Você pode ficar mais um pouquinho?

Foi a vez de ele responder: SIM.

Não pensei duas vezes, tranquei a porta da sala e empurrei o PAUlo contra a parede.

Nos beijamos com tanta força que até perdi o fôlego. Que pegada era aquela?

Fui descendo as minhas mãos, arranhando as costas dele. Cheguei na bunda, hum era bem durinha e grande, já imaginei a potência do impulso daquela bunda!

Abri a calça jeans dele e, claro, o pau do PAUlo era o maior, mais grosso e mais duro que eu já tinha visto. Caí de boca!

Depois foi ele que me jogou na mesa, abaixou a minha blusa e beijou meus seios dando mordidinhas que me arrepiavam inteira, então levantou a minha saia e me chupou de um jeito muito bom. A melhor chupada da vida!

Quando eu já estava delirando de prazer ele me colocou em pé, de costas para ele, apoiada na mesa e UOU! Achei que fosse sair pela garganta, mas não. Foi bom, muito bom!

Nós dois gozamos juntos, que espetáculo!!!

Então ele saiu, levantou a calça e eu lembrei do relatório.

- PAUlo, muito obrigada, muito obrigada mesmo!

Ele disse que era para eu chamá-lo sempre que precisasse (claro que eu vou precisar) e se foi.

Fiz o relatório ainda ofegante, no mesmo ritmo do sexo. E quer saber? Ficou perfeito e pronto antes da hora! Deu até para almoçar, que luxo...

O mais engraçado é que pelo resto do dia a música que não saía da minha cabeça era o hino do São PAUlo:

“Tu és forte, tu és grande

Dentre os grandes és o primeiro”

(...)

“De São PAUlo tens o nome

Que ostentas dignamente”

(...)

“Tuas cores gloriosas

Despertam amor febril”...


Carol

Tema 22 - Amorfo

AMORFO

Ele saiu pela porta e eu me deparei comigo mesma. Sozinha. Amorfa. Sem forma definida. Sem vivacidade. Sem energia. Inativa. Disforme (de tanto chorar). Apática.

Num estado que beirava o horrendo, monstruoso.

Olhei no espelho e pensei: “Quem é essa pessoa?” “Qual a sua identidade?” “Do que ela gosta?” “Do que não gosta?” “O que ela quer para ela?”.

E a única resposta que me vinha para todas essas perguntas era: “Não sei.”.

Então tentei achar a causa dessa amorfidade que tomava conta de mim: “Quando foi que eu me esqueci de mim?” “Quando foi que eu passei a me importar mais com os outros do que comigo
mesma?” “Quando eu deixei de viver a minha vida para viver a vida do outro?” “Quando foi que eu me entreguei sem pensar?”.

Resposta: “Não sei”.

Sem ter por onde começar, sem achar um ponto de partida, decidi que a estratégia era passar para a ação com o simples e único objetivo de renascer, me descobrir, saber quem eu sou, o que quero para mim.

Deixar de ser amorfa!

E, principalmente, não deixar que ninguém faça isso comigo de novo!


Carol

Tema 22 - Amorfo

Amorfo


Imune às variações

externas.


Se encaixar?

Não...

Nada de assumir formas,

padrões pré-definidos.


Isso é para os fracos.


Aos fortes ficam

a beleza do

não pertencer.


A simplicidade complexa do

ser.


Só,

ser.




Luciano

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Tema 21 - Morte

Nace una flor un día
y a la misma hora muere un amor”
Fito Paéz


E com a mesma velocidade que surgiram, cada uma das sensações se esvaía conforme as palavras proferidas chegavam aos seus ouvidos.


Não sabia se era a frieza no tom da voz, ou a dureza com a qual cada sentença foi meticulosamente escolhida, ensaiada, lapidada para ferir e não sobrar mais esperanças.


Cada boa lembrança que voltava a sua mente era dinamitada por ações, discursos (ou a falta de ambos), ou qualquer outro motivo que pudesse ser usado como arma nesta batalha de egos chamada relação humana.


No fundo, ainda atordoado com a velocidade e a precisão de cada golpe (será que ela foi treinada pelo Steven Seagal também?), se perguntava se tudo isso era realmente necessário, um “Me desculpe, mas não gosto mais de você” não resolveria?


Provavelmente não, sempre haveria a esperança.


Esperança essa, que tratou de ser aniquilada, para seu próprio bem, ele concluiria depois, mas ainda era cedo para entender...


Dale tiempo al tiempo, diria Rodolfo Paéz, mas a morte não permite esse tempo... não na cabeça dele.


Mas não importava, o que ele pensava não importava, nem para ele mesmo.


Só restava o sepultamento e o luto por cada sensação...


Luciano

Tema 21 - Morte

Morte Querida,

Nós duas sabemos muito bem que mais cedo ou mais tarde você vai chegar. Mas, sinceramente, eu não tenho medo de você!

É claro que eu penso em você, em como você vai chegar e se eu pudesse escolher, preferiria que você fosse rápida e que viesse na hora certa, (entende-se por hora certa o período entre os 70 e 80 anos, ok?).

Uma amiga budista me disse que o ideal é toda noite antes de dormir imaginar sua chegada de um jeito, uma noite você chega me enforcando, na outra me afogando e assim por diante que é para eu me acostumar c você.

Acho melhor imaginar sua chegada para as pessoas que eu amo e não para mim, já que eu sofro demais quando você leva alguém que eu gosto.

Nunca vou esquecer quando você levou embora minha melhor amiga. Morte estúpida!

Você é tão inconveniente, intolerante e egoísta! Ou será que a egoísta sou eu? Você me lembra toda hora do quanto eu sou mimada e insignificante...

Até quando você me aparece de forma simbólica, quando alguém resolve deixar de existir para mim... O vazio que você deixa é tão cruel!

Pelo amor de Deus, seja mais sensata, haja com o mínimo de bom senso!

E para acabar com essa nossa conversinha fúnebre, eu só te peço um favor, da próxima vez que aparecer seja discreta!

Sem mais.

Carol

Tema 21 - Morte

Nascimento e morte

“Morrer deve ser tão frio como na hora do parto/ O melhor lugar do mundo é aqui e
agora” (Gilberto Gil).

Dizem que a esperança e o otimismo são para fracos, tal qual a compaixão para Nietzsche, no que sempre concordei. Quem morre, morre. Morrer, verbo intransitivo.
Pensando nisso e nas bobagens da rotina da vida, à luz da canção de Gil, fui para os braços de Morpheus. A noite não passava, o sono teimava em não chegar e a vida persistia em permanecer viva. Sempre pensei em suicídio, mas não me tomem por covarde ou herói, meu pensamento é fruto de reles curiosidade científica acerca do devir da morte. Talvez para religiosos de qualquer estirpe matar-se deve ser mais fácil e acolhedor, o que justificaria tamanha ojeriza pelo ato, a coisa em si ofusca. Acho por isso pensei em me matar, influenciado por Immanuel e sua tamanha subjetividade para esclarecer o que seria “a coisa em si”. Nunca entendi a questão, nunca me souberam ou a outrem explicar. Dizem que sabem, mas acredito que a teoria está longe do palpável, ou seja, a essência não deve estar aqui, daí a idéia de suicídio.

Matar-se é simples, Hollywood já demonstrou inúmeras vezes como fazê-lo, mas e morrer? O medo da dor supera a curiosidade?, o medo do fim, supera a experiência? De modo que repensei a morte e vi que o problema está no medo, o medo do findar. Pensei em pensar em Deus... quanta bobagem... é melhor dormir.

Acordei às dez e pouco com o cheiro do café, era domingo e o martírio da lida ficou esquecido no labirinto do inconsciente. O cheiro era bom, o café também, mas eu andava atordoado com as questões da madrugada. Tomei o café até o fim, comi biscoitos água e sal com margarina. Estava só no meu canto, nada de amigos ou mulheres a me visitarem nas últimas semana, meu violão calara-se desde a morte de meu cão... Ah morte... Conceito biológico, conceito filosófico, “conceito” religioso... Fiquei assistindo bobagens pela tela da TV e sempre a morte aparecia em minha frente. Mortes duras, escandalosas, serenas, apaixonadas, a morte do amor... Morrer para o amor é se matar vivendo.

Liguei para Beth (se escrevia com H, pois seu nome era Elisabeth como o da rainha) e ela não estava, no meu coração havia morrido há tempos, mas liguei para Beth para me sentir vivo, afinal uma boa transa não mata ninguém e ainda faz suar. Mas ela não estava. No ápice da minha debilidade mental vesti minhas calças jeans e minhas sandálias havaianas para procurar abrigo fora de casa. O vazio das canções sertanejas se apoderou de mim, uma coisa horrível, uma náusea sem sentido, uma coisa pela coisa... Passou, era apenas o “videokê” de um boteco. Ufa! Por um instante pensei que morreria! É não quero morrer. Resolvi continuar a caminhada e deixando que só a morte me separe do amor que renasce em mim a cada boa canção que deixe de falar de amor, ou que fale dele pensando no quanto é boa uma metáfora. Deixe a vida correr com toda sua turvação, não quero o riso dos tolos, tampouco o acolhimento dos religiosos, dê-me a dor com toda sua clareza e perfeição de inerentes! Deixe-me cá com meu desaforo, pois desaforado estou e desse combustível só me mata o que é humano. A ironia é que o mesmo que mata faz viver. Ultimamente ando pensado demais nas contradições... Ah como são boas as canções!

Rodrigo

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tema 20 - Encontros e desencontros

Timing...

Sincronismo de chances, momentos, disponibilidade, percepção...

Os olhares que se cruzam, o desejo que aflora...

- Te quero... Mas não...

Agora não...

Tempo, espera.

- Esperar?

Já esperei demais.

- Dê tempo ao tempo. Me espere...

- Por quanto tempo?

Quantos suspiros?

Quantas noites mal dormidas, na expectativa?

- O necessário...

- Não posso prometer isso...

Eu quero,

eu esperaria... Mas

não posso.

- Por que?

Nós, juntos, não é motivo?

- é... mas a espera é torturante,

angustiante e

a vida, precisa seguir.


O silêncio... é o único som que se ouve...


A primeira lágrima

escorre.


O primeiro soluço...


O abraço ardente...


- E se... quando eu puder, você não possa mais?

-Teremos que viver com isso...

Por algum motivo,

nossos encontros, sempre são

desencontros...





Luciano

Tema 20 - Encontros e desencontros

Encontros e Desencontros

Como saber se um encontro é “O Encontro” ou se não passa de
um tremendo desencontro?

Poderia estar um encontro causando o desencontro de outros
encontros melhores?

E quando encontros físicos acontecem com um certo
desencontro de ideias? E encontros de ideias que nunca chegam a um
encontro físico?

Será o destino responsável por todos os nossos encontros
e desencontros? Ou são as nossas escolhas que escolhem alguns
encontros e automaticamente excluem muitos outros?

Teriam todos os encontros prazos de validade por certo período
até se tornarem desencontros?

Poderiam alguns desencontros fazer pessoas se encontrarem do
nada?

E como explicar o encontro de duas pessoas, já encontradas
por outras pessoas, numa cidade famosa pelo desencontro de
interesses, se tornar o “Grande Encontro”? E se essas pessoas se
desencontrarem das que eram encontradas antes de se conhecerem
e mesmo assim outros desencontros fazem com que elas só se
encontrem ocasionalmente... Em encontros clandestinos... Tem que
ter explicação?



Carol

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Tributo a Michael Jackson

-Who’s bad?

Foi assim q tudo começou...

Era uma noite fria nos guetos de New York, eu já estava bem louco e nem reparei no negão q estava no caminho.

Não deu outra... dei um belo encontrão e minha bebida escorria pelo casaco dele.

Ele virou para mim olhando com aquela cara de Jacko no clipe de Thriller, sabe aquela hora q os mortos vivos ficam em volta dele e da menina? Então... foi quase igual.

Eu só falei um “my bad”, e foi aí q veio:

-Who’s bad?

Eu travei. Só pensava em quanto eu ia apanhar e respondi: “you, you are very bad mister”

_ Yeah, I’m really bad bitch!

E foi quando toda a negada q estava em volta começou a dançar.

WTF???? Eu pensei, com assim, eu derrubo bebida no cara, falo q ele é um badass módafocker e ele começa a dançar???? Eita kugarzinho estranho, se fosse nas quebradas da zona sul de Sampa, eu já estava comendo grama pela raiz, meu.

Mas como diria Petterson Foca, no Chile, faça como os chilenses, comecei a dançar Tb... fiz a sensacional dança do samurai erótico, dança da minhoca ensandecida e todas as variações de put your hands up in the air. E virou uma batalha de dança.

Aí... todos começaram a fazer o Moonwalk, justo o único passo q eu nunca consegui repetir com maestria.

Moonwalk pra cá, moonwalk pra lá… decidi usar a arma secreta, e na velocidade 5!

Crcrcrcrcrcrcrcrcrcrcrcrcrcrcrcrcrcrcrééééééééééééééééééééééééééééu.

Rapá! Todo mundo parou.

Engoli a seco... pensei “f o d e u!”

Que nada! Todos começaram a fazer o creu na velocidade 72 aplicando um moonwalk no meio!

Dali fomos pro bar todos juntos cantando: “Heal the world, make it a better place, for you and for me and all the fruit women!”

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Tema 19 - Pernas

O toque das coxas,

O movimento ritmado,

Nós articulados.


Pegadas firmes

Mordidas,

Toques.


Abertas,

Dobradas...


Entrelaçadas...

Suadas...

Trêmulas...

Satisfeitas.

Tema 19 - Pernas

Leitura de revista





Um furo! Um inocente furo me fez reparar. Sentado à espera da consulta lendo uma porcaria qualquer dessas que há em qualquer consultório de um médico qualquer, aguardava à hora da chamada para adentrar à sala do dentista, nela seria decidido meu futuro, o futuro de toda uma geração de arcada e obturações, falava-se até em cirurgia!, anestesista, bisturi e outras coisas nauseabundas que dão outras coisas incômodas nos sentidos de qualquer um, eu que sempre pensei que a broca seria o portal para o inferno descobri que a fechadura estava ao lado da mesa da secretária. A capainha tocou, provavelmente mais um infeliz que tenha de colocar aparelho nos dentes ou um pior que esteja como eu. Existiria alguém pior que eu naquele e dia? Obviamente não.

Era uma mulher, os passos, a onomatopéia dos saltos ecoaram pelo corredor.

- Olá tudo bem Dona Sônia?

- Bom dia Virgínia como vai?

- Com medo da broca.

Os risos soaram falsos como as saudações de desejos de bom grado, Sônia passou e se sentou para ver a agenda do doutor Alcides, eu com os olhos nem tão fixos numa revista de futilidades, levantei-os sobre os óculos e a vi da cintura pra baixo. Minha timidez não me permitiu qualquer contato visual com Vigínia. Ah Virgínia! Era um belo vestido aquele dela, belo e curto, pegava à metade de sua coxa, suas pernas eram perfeitas, quase um flamingo, e antes que se comente coisas negativas acerca dessas belas aves peço que antes visitem uma reserva onde elas estejam em seu estado natural. Assim era ela, natural naqueles saltos, as meias transparentes alçavam a lisura de seus joelhos e a nitidez das panturrilhas bem feitas como a dona, nunca conheci pernas iguais, quase um manga larga. Sentou-se diante de mim para a alegria e constrangimento de meus olhos que “liam” interessadamente aquela revista. Cruzou as pernas, porque elas fazem isso? Isso de cruzar as pernas é quase mortal, é quimera para homens que nunca sonharam, pra quê cruzar as pernas! Sobretudo quando se estão elas dentro de tão lindas meias e tão bem formadas pelo tempo.

A julgar pelos joelhos devia ter mais que trinta anos. Eu torci para que ela não pegasse revista alguma, no começo foi bom, ficou a ouvir alguma música alta que saía de seu Mp 3 player, provavelmente um desses resquícios roqueiros dos anos 80, uma dessas caretices que enganam pela roupagem de modernidade. Desligou o aparelho e pra minha tristeza sacou de uma revista feminina. O que será que pensava? Será que me olhava também? Não que é isso... Logo eu! Um cinquentão desquitado com medo de anestesia!!! Não jamais me olharia senão para perguntar as horas, mas como as pulseiras dos relógios me dão alergia... Bem que mamãe poderia ter insistido mais com papai para me levar ao alergologista, mas ele achou que isso não interferiria na minha vida, em sua época os casamentos eram arranjados. Sempre achei que os relógios valiam mais que o tempo que nele consultávamos.

Permaneceu a ler sua revista, a essa altura suas pernas me hipnotizavam de tal forma que possivelmente eu já deveria ter dado na cara, não mais me lembrava do que me esperava na cadeira do doutor Alcides. Devia ser fútil, só gente fútil lê revista de fofoca em consultório dentário, com essas pernas só podia ser fútil. Provavelmente freqüenta baile funk sem calcinha, arrebitando o rabo pra todo mundo ver o que a roupa esconde. Não... Com essas pernas não. Era atleta! Isso sim! Atleta! Uma tenista! Talvez como aquela russa campeã de Wimbledon. É possível...

- Dona Virgínia pode entrar.

Levantou-se deixando cair a revista de volta ao cesto. Uma após a outra se entrelaçaram até chegar à porta que dava à sala de exames. Parou, exitou. Acho que ela olhou pra trás, mas eu só olhava para baixo.







Tema 17 - Futebol



A coleção





Bem que meu pai tentou, mas não deu, não vi Pelé e Coutinho jogarem, meu coração nasceu bruto como o sertão da Paraíba, minha categoria já era de vira-lata. Meu irmão mais velho vira, mas parece que não gostou muito do comodismo de ver um único time ser campeão de tudo. Certa vez jogando futebol de botão eu estava com o time do Grêmio de Porto Alegre, àquela época os jogadores do sul já tinham fama pela raça aplicada em campo, escolhi o Grêmio por isso e pelo medo de ver meu time perder. Meu time era e sempre foi o glorioso Corinthians, como eu era muito ruim na arte do jogo de botão preferi outro time, mas apesar de toda a raça aplicada pelo lateral Alfinete eu perdi de meu irmão. Tenho certeza que ele me roubou, já que era mais velho que eu e meus socos jamais o feririam. Perdi. E segui perdendo. Até que um dia briguei para ser o Corinthians à época meu ídolo era o Doutor, o cara jogava mais com o calcanhar que com a chapa do pé, certa vez ele disse na TV que fazia isso porque não sabia jogar, aí se virava de costas para poupar seus olhos da vergonha de um passe errado. Falsa modéstia, o cara acertava todas, por isso Telê o levou pra copa do México, Ah aquele pênalti do Zico! Modéstia que seu irmão no futuro não herdaria jogando por um time pouco modesto criado às barbas da burguesia cafeeira paulistana. Não adiantou muito eu jogar com o Timão, apesar de Sócrates, Zenom, Casagrande, Wladimir e Cia. a democracia perderia para a experiência do Grêmio, dessa vez comandado por meu irmão.

Não joguei mais, nunca mais! Ele me chamava pra jogar, mas eu não ia. Quem mandou ele ganhar do Corinthians? Afinal ele não ganhara de mim, ganhara do Timão, tinha que deixar a bola entrar pelo menos por um empate, nem parecia que era corintiano como eu, aliás eu que era como ele, meu pai querendo que eu fosse santista sem ver o Pelé e meu irmão que eu fosse corintiano vendo o Sócrates, é claro que eu deixaria o alvinegro praiano para os peixes e ficaria pelas bandas do parque São Jorge.

Nos anos 90 vi o maestro gordo Neto jogar, vi como ele bateu uma falta indefensável da intermediária contra o gol do pobre Santa Cruz num Pacaembu lotado em dia de frio. O resultado foi 3 x 1 e o Coringão seguia firme em busca do nosso primeiro campeonato nacional. A década de 90 viu também um carioca virar rei pelos lados do Tatuapé, ele fez com que eu voltasse a jogar botão, mas dessa vez ganhando de meu irmão. Fiz coleção de jogos de botão, achei até o América de MG vejam vocês! Uma coleção ímpar que obviamente deixou o Palestra Itália de fora, pois ninguém jogaria com o arqui-rival, e se jogasse claro deixaria a bola passar, tomaria alguns frangos e etc.



Minha coleção durou até o ano de 2006, quando da derrota para o River Plate em plenas luzes do Pacaembu pela taça Libertadores da América. No dia seguinte joguei a coleção toda de cima da ponte da Casa Verde deixando-a navegando sobre as águas do Tietê, era uma promessa que tinha feito à Virgem, pois ela me traiu, perdemos a libertadores, perdi minha coleção, o Timão perdeu e minha fé foi junto com a coleção, pelas águas bostadas do Tietê.

Tema 17 - Futebol

Crônica de um beque de fazenda



E de repente a bola veio para mim...

Foi meio inesperado, pois, confesso não ser um artista da bola, pelo menos não da redonda, mas mesmo assim, ela veio parar em meus pés.

Sempre fui conhecido mais por minhas enchadadas que pelos meus dribles, esses eram do estilo cometa Halley, aconteciam uma vez a cada 72 anos...

Isso tornava ainda mais incrível alguém tê-la passado a mim.

Estava sol no campo, eu já tinha tirado dois da partida com entradas viris que aprendi vendo Escudero jogar, meu uniforme, que era branco, se encontrava com uma cor entre o marrom e o vermelho sangue. E a bola veio para mim.

Senti um calafrio, um medo de fazer besteira. Pensei comigo mesmo: “faça o arroz com feijão, isola essa bola!”. Mas eu não podia, por mais que a torcida delirasse com meus chutões, eu estava mudado, tinha assistido a uma reprise de um jogo do Corinthians e vi Gamarra jogar... Classe, pura classe...

Decidi então parar com os chutes para cima e resolvi levantar a cabeça, olha o posicionamento de meus companheiros, pensar.

Eu realmente devia ter feito o feijão com arroz...

Mas não, parei, fiz pose de Bobby Moore, escolhi o predestinado que receberia meu lançamento, me preparei para aparecer na foto...

Prendi a respiração...

Chutei.

.

.

.

Perdi o equilíbrio, espanei a bola e caí no chão.

O atacante adversário pegou a gorduchinha, driblou o goleiro e marcou...

Que vergonha...

Eu realmente devia ter feito o feijão com arroz.

Tema 16 - Liberdade



Um segundo





Só mais um copo por favor, Tomou a derradeira e partiu do bar do velho Matias, perambulou pela cidade em busca de alguma resposta que não havia encontrado nem em livros, tampouco em amigos, e a cidade também lhe deixou com sua ausência. Carlos tinha apenas vinte sete, vinte sete e nada de a vida acontecer da forma como sonhara que aconteceria aos vinte sete quando dos seus quinze anos. Frustrou-se cedo demais, achava a liberdade algo palpável como a carne ou uma roupa qualquer que se escolhe em dia de inverno, um vazio criado pela razão e apoderado de seu corpo interno, fez da busca pela reposta um desespero. ]

O relógio do mosteiro de São Bento sinalizava dezessete horas em São Paulo, verão intenso somado à estufa de um asfalto perturbador fazia abafar a capital, o tempo fechou, o negrume das nuvens obrigou alguns automóveis a acenderem os faróis outros a desviarem o caminho, ao sentir as primeiras gotas da tempestade tocarem seu braço Carlos parou e olhou ao céu, não gostou do que viu, cerrou os olhos, às vezes é melhor deixar de ver para gostar, ao seu redor uma correria generalizada, alguns guardas-chuva circulavam nas mãos de quem fugia do temporal, outros voavam com o dono molhado tentando recuperar aquele bem tão valioso que não custava mais que dez reais no camelô. Chorou. Chorou porque ninguém o perceberia chorando e uma sensação de bem estar descompromissado com a realidade estancada lhe envolveu, as lágrimas e a chuva seriam a mesma coisa, era tudo água e fuga, e chorando caminhou, esbarrar-se-ia naquele tumulto diluvial entre transeuntes e passantes que mais pareciam passistas de um samba desgovernado, um banho público sem nudez de vestimenta.

Chegou ao Vale do Anhangabaú quando a chuva já se desviara para outro destino, apenas vestígios de sua passagem havia pelas ruas, poças sujas de uma cidade não muito limpa mergulhavam na paisagem de um crepúsculo mal expresso. De cima do viaduto do chá cuspiu, Demorou viu! Disse a um jogador de búzios que fazia seu trabalho, Os búzios nunca mentem rapaz, volte ao seu emprego, Não posso, aquele lugar me sufocava, e agora que já pedi demissão não volto atrás, meu orgulho é grande, quero me libertar das amarras desse sistema, São cinco reais o jogo, Carlos saiu correndo no meio do viaduto, não tinha dinheiro, não tinha nada. À Avenida São João parou ponderou e olhou envolta, de um lado a Igreja dos Homens Pretos no Largo do Paissandu de outro a Galeria do Rock, não gostava de nenhum dos dois, nem da igreja nem de roqueiros, desceu a São João de volta ao Anhangabaú. Estava livre, sem trabalho, sem família, sem dinheiro, livre de qualquer dignidade e agora livre de seus sapatos molhados pela chuva.

Descalço adentrou ao edifício do Banespa, a segurança não o viu passar era discreto apesar do fedor pós-chuva que exalava como um cão, preferiu a escada ao elevador, a cada passo, a cada degrau que subia olhava para o que ficou e o que deixaria de ficar, minimizou sua pequenez universal sentindo-se grande diante dos lances que passava por cima, não queria pensar no passado sua vida estava em plena elevação tardia, mas elevação, logo teria a cidade aos seus pés, do mirante vê-se o que a liberdade pensaria em representar caso não houvesse outros e maiores mirantes, nesse e em outros universos.

Sucumbiu no décimo andar da Torre, pôs-se aos pés do sono. Ninguém o percebeu por ali, as escadas só eram usadas em caso de queda de energia ou incêndio, como nem um, nem outro aconteceram naquele noite, ele dormiu em paz. Apesar do sono tranqüilo acordou dolorido pelo mau jeito com que dormira por entre os degraus. Levantou-se e com fome continuou sua saga rumo ao topo da cidade, após algumas horas chegou ao mirante onde muitos turistas e compatriotas observavam de lá o cinza suspenso que encanta e faz tossir. Todos aguardavam o poente, visitantes japoneses comentavam em inglês que certa vez um paulistano de passagem por Okinawa lhes dissera sobre a beleza controversa do pôr-do-sol de sua cidade natal. Para um homem em busca de liberdade a cena do crepúsculo pode ser seu exato oposto, ao contrário do que afirmou o campeão de pára-quedismo Jorge Souto em entrevista à TV.

Carlos experimentaria a liberdade quando muitos visitantes já deixavam o local, apenas os japoneses presenciaram a queda, daí a impossibilidade compreensiva de os seguranças atenderem aos seus chamados de socorro, um help com sotaque nipônico, um vôo breve e a liberdade eterna, preso ao martírio físico não sabia o que viria após chegar ao solo, a dúvida era a sua verdade, pensava quando um pombo sujo de urbanidade lhe passou por suas vistas alguns milésimos de segundos luz (ou menos), pensou no vôo que alçara instantes antes, e agora vislumbrava seu pouso como a um urubu a avistar as carcaças de peixes miúdos ignorados pelos pescadores. Antes de o seu corpo se estatelar-se ao chão vieram-lhe imagens de seus miolos, tripas, pâncreas e restos de carne e sangue num mosaico sinistro entre ossos quebrados e poças d’água de chuva suja. Não gostou do que viu, imaginou-se como a um resto de estrela desfalecida, Um pó! Bradou aos peitos cheios antes de o coração parar sua atividade mundana. Livrar-se da vida é dádiva para poucos.

Tema 15 - informação





Um Sítio Comum



Não se ouvia nada, nunca nada era ouvido. Era como se fosse um eco surdo, um mundo inteiro fora de seu mundo. O eterno vácuo de ser você para si mesmo. Uma ausência despercebida pela satisfação das necessidades inatas. Nada sabia, nada e nunca soube dantes, esquecia-se olhar para dentro, e para fora do vidro, que se via embaciado pelo orvalho da aurora, o mundo era grande, enorme, mas pouco interessante para o palato ou para a sensualidade. A aurora pouca de luz oferecia-lhe, a cama é um refúgio confortável e estável, o sonho de qualquer mortal para aquém de Sócrates, o ofício de sonhar resigna-se entre o que se passa na mente durante o repouso e a testemunha inanimada do colchão, para que a vigília faça seu papel de uma constante feliz beirando o abismo ignorante da falta.

Era um sítio largo, porém humilde, uma casa, uma área gramada, uma encosta e um abismo. De cima se via o que a cidade fazia de sua economia lá embaixo, a encosta limitava seu campo de visão para oeste, o que não era muito diferente para leste, onde estava a ribanceira, direção coberta por uma micro floresta, o suficiente para bloquear a área de atuação ocular tanto quanto a encosta o fazia, a exceção de alguns carros nada mais se via lá do alto, mas as árvores eram belas.

Vivia bem com suas culturas de hortaliças ao norte da casa e seu galinheiro à beira da encosta, não necessitava carne vermelha seu cérebro não fazia questão tamanha proteína, às vezes pescava num lago contíguo, uma variação suficiente para seu limitado gosto.

Tinha tudo o que precisava, informação suficiente para sua satisfeita sobrevida, não lia nem escrevia, não somava nem subtraia. Bastava-se a si mesmo, entendia sua história, suas palavras, sua economia e seu sexo. Uma falta de pretensão beirando o encontro da eterna busca humana, inconscientemente.

Tema 15 - informação

Perdido... simples assim.

Não sei onde estou, a noite havia sido alucinante, nem lembro quantos Jesus me chama eu tomei...

Juro que nunca mais faço isso... Acompanhar o Mmatteucci na ladeira da alegria não é fácil. Coloquei para dentro tudo que havia de líquido em garrafa e lata que tinha naquele bar púrpura.

E nem deus sabe o q coloquei pra fora naquele banheiro fétido.

PQP, que ressaca...

Parece que engoli um guarda chuva (agora na versão sem hífen), preciso de um gatorade ou algo do tipo.

Bom, mas primeiro vou abrir os olhos.

Hooooooooooly crap!

Alguém apaga esse sol por favor!

Que coisa molhada é essa na minha boca?

Putz... um cachorro lambendo minha boca, devo estar numa sarjeta, belo clichê...

Bom, vamos lá, hora de tentar virar gente de novo.

Abrindo os olhos devagar, tentando me acostumar à luminosidade excessiva...

Levantando devagarinho, oooopa, quase caí de novo.

Pronto, consegui, estou em pé.

Continuo sem saber onde estou.

Que gosto horrível na boca, ainda bem q sempre tenho uma goma de mascar no bolso.

Hmm..

Agora sim, bafo sabor menta.

Uma pessoa vem vindo.. o q faço?


- Sr, por favor, uma informação. Onde estamos?

- Na Rua Avanhandava, meu jovem.

- Muito obrigado.


Caramba, será q desci rolando até aqui?

Não sei, só sei que agora já posso voltar pra casa.

Tema 14 - Amante

Presentes...

Performance, paixão...

Malabarismos impensáveis...

Atos proibidos com a mãe dos meus filhos.

Perigo,

Sabores...


Experiências.


Um único compromisso,

Manter o segredo,

Nunca me ligue.

Nunca.


Eu amo minha mulher,

Você?

Você me dá tesão,

Você me alivia,

Você me tira desse mundo

Cotidiano.


Não espere

Nada

Além.

Tema 14 - Amante


Sem atrito



Fazia calor naquela tarde de inverno, mais umas dessas indeléveis intempéries climáticas fruto das modernidades mundanas, a temperatura era muita para aquele pouco corpo moreno de sol e franzino de vida. Era mulher já quase madura, quase feita, oscilava a idade entre vinte e sete e vinte oito anos, uma dessas esquisitices femininas para não se comprometer com a vida, mas a verdade é que continuava linda como aos dezessete ou dezoito. Desabotoou a blusa branca que transparecia o sutiã também branco, não sacou-a, esperou. Desatarraxou o sutiã com a blusa ainda cobrindo seu colo, o sutiã caiu ao chão colocando à mostra seios firmes quem olharam ao adversário como quem incita o guerreiro à luta, a tênue cortina que protegia seu peito rasgou-se por uma brusca puxada de seu conviva casual, quando da nudez o humano parece esquecer quem assim deve ser, assim sempre foi, e assim será. Despe-se a roupa fica o pudor, coisa pouca que muito afeta a vida em sociedade, coisa grátis que cobra um tento a cada consciência de que suas existência e criação dependem de um humano superior, sacerdotal, que quando do himeneu de seu prelúdio animal sede à tentação, ademais de qualquer voto de castidade, o maior pecado é ignorar ser o humano uma espécie dentro da espécie. O suor marcou essa tarde, o suor pelo sol a pino, o suor das axilas, o suor dos nervos em fúria de transição, o suor da contemplação estética de outrem, o suor corpóreo que minimiza o atrito como numa equação física a se ignorar o atrito para que se chegue a um resultado menos dolorido possível, o suor do feromônio.

Consumado o ato vestiu-se de sua saia negra de secretária, abotoou os insinuantes botões da blusa braço-transparente, tomou de sua bolsa e se foi, deixou-o estatelado a dormir, como um servo em seu descanso pós-obrigação. Trancou a porta do quarto quebrando a chave na fechadura de modo a não se poder abrir a porta tão cedo. Ao adentrar sua casa, como de costume, seu esposo já lhe esperava com a janta ao forno, pato assado com batatas souté era o prato do dia, saboreou-o com muita gana, estava delicioso, melhor que o breakfeast daquele mesmo dia, quando ela mesma preparara deliciosas panquecas e ovos dourados acompanhados de suco de laranja e chá preto para seu esposo que adorava.

No dia seguinte faltou ao trabalho na parte da manhã, queria saber como estava seu chefe no quarto daquele hotel. Na recepção recebera a notícia que aquele quarto estava desocupado e que se quisesse estava em promoção a diária com meia pensão. Aceitou a proposta e pegou o cartão, substituíam todo o sistema de fechadura dos quartos do hotel para cartões magnéticos que bastavam serem postos no encaixe para a porta ser aberta. Ligou ao escritório e informaram-na que o chefe ainda não chegara para a lida, previa um serão para depois do serviço, do celular mandou um torpedo ao marido avisando que ficaria até mais. Já era quase noite feita quando ele chegou, houve uma pequena discussão por causa do incidente da chave, mas ela recordou-lhe que não fazia mais que realizar um fetiche dele, ele consentiu com a cabeça, mas não se conteve, foram inúmeros safanões, murros e chutes, violência bruta em seu estado mais bruto, tentou se desvencilhar daquele parceiro antes tão desejoso e amável, mas era fraca demais para aquele gordo.

Não retornou à sua casa, dormiu lá mesmo toda dolorida da surra, mas como era boa a dor! Poucos sabiam apreciar a transcendência da dor e seu esposo não era um deles. O patrão gordo chegou ao hotel por volta das quinze horas, mesmo período em que seu marido dava queixa com o delegado Zé da décima nona DP:

- Infelizmente temos que aguardar quarenta e oito horas para registrarmos queixa de desaparecimento.

- Que absurdo!

- Não posso fazer nada, só cumpro as leis.

Ela acordou com um lindo ramalhete de orquídeas a seus pés, às vezes seu chefe se dava ao luxo de rompantes românticos, o que lhe dava medo, não queria maiores envolvimentos emocionais desejava apenas o cargo de executiva chefe, o que jamais conseguira. A PM encontrou seu corpo coberto com tais flores, roxo e desvanecido à porta da suíte, ao criado-mudo pendia um bilhete sem rubrica:

“O amor transcende a barreira da moral, a isso são raras as compreensões.”

Ao avistarem o bilhete um estrondo vindo do banheiro, um som de queda ou algo que o valha. O corpo obeso com hematomas pela cabeça devido à pancada à beira da banheira, pouco sangue havia, os laudos periciais acusaram morte por envenenamento. Sem solução o caso foi arquivado. Enquanto se armava o circo, polícia, imprensa, curiosos e transeuntes, seu esposo tomava um delicioso e amargo café no estabelecimento contíguo.