O toque das coxas,
O movimento ritmado,
Nós articulados.
Pegadas firmes
Mordidas,
Toques.
Abertas,
Dobradas...
Entrelaçadas...
Suadas...
Trêmulas...
Satisfeitas.
Um projeto descompromissado de dois amigos de trabalho (agora três), é simples, cada terça um escolhe um tema, na outra, os dois entregam o que escreveram. A punição se não entregar? Pagar o almoço do outro.
O toque das coxas,
O movimento ritmado,
Nós articulados.
Pegadas firmes
Mordidas,
Toques.
Abertas,
Dobradas...
Entrelaçadas...
Suadas...
Trêmulas...
Satisfeitas.
Leitura de revista
Um furo! Um inocente furo me fez reparar. Sentado à espera da consulta lendo uma porcaria qualquer dessas que há em qualquer consultório de um médico qualquer, aguardava à hora da chamada para adentrar à sala do dentista, nela seria decidido meu futuro, o futuro de toda uma geração de arcada e obturações, falava-se até em cirurgia!, anestesista, bisturi e outras coisas nauseabundas que dão outras coisas incômodas nos sentidos de qualquer um, eu que sempre pensei que a broca seria o portal para o inferno descobri que a fechadura estava ao lado da mesa da secretária. A capainha tocou, provavelmente mais um infeliz que tenha de colocar aparelho nos dentes ou um pior que esteja como eu. Existiria alguém pior que eu naquele e dia? Obviamente não.
Era uma mulher, os passos, a onomatopéia dos saltos ecoaram pelo corredor.
- Olá tudo bem Dona Sônia?
- Bom dia Virgínia como vai?
- Com medo da broca.
Os risos soaram falsos como as saudações de desejos de bom grado, Sônia passou e se sentou para ver a agenda do doutor Alcides, eu com os olhos nem tão fixos numa revista de futilidades, levantei-os sobre os óculos e a vi da cintura pra baixo. Minha timidez não me permitiu qualquer contato visual com Vigínia. Ah Virgínia! Era um belo vestido aquele dela, belo e curto, pegava à metade de sua coxa, suas pernas eram perfeitas, quase um flamingo, e antes que se comente coisas negativas acerca dessas belas aves peço que antes visitem uma reserva onde elas estejam em seu estado natural. Assim era ela, natural naqueles saltos, as meias transparentes alçavam a lisura de seus joelhos e a nitidez das panturrilhas bem feitas como a dona, nunca conheci pernas iguais, quase um manga larga. Sentou-se diante de mim para a alegria e constrangimento de meus olhos que “liam” interessadamente aquela revista. Cruzou as pernas, porque elas fazem isso? Isso de cruzar as pernas é quase mortal, é quimera para homens que nunca sonharam, pra quê cruzar as pernas! Sobretudo quando se estão elas dentro de tão lindas meias e tão bem formadas pelo tempo.
A julgar pelos joelhos devia ter mais que trinta anos. Eu torci para que ela não pegasse revista alguma, no começo foi bom, ficou a ouvir alguma música alta que saía de seu Mp 3 player, provavelmente um desses resquícios roqueiros dos anos 80, uma dessas caretices que enganam pela roupagem de modernidade. Desligou o aparelho e pra minha tristeza sacou de uma revista feminina. O que será que pensava? Será que me olhava também? Não que é isso... Logo eu! Um cinquentão desquitado com medo de anestesia!!! Não jamais me olharia senão para perguntar as horas, mas como as pulseiras dos relógios me dão alergia... Bem que mamãe poderia ter insistido mais com papai para me levar ao alergologista, mas ele achou que isso não interferiria na minha vida, em sua época os casamentos eram arranjados. Sempre achei que os relógios valiam mais que o tempo que nele consultávamos.
Permaneceu a ler sua revista, a essa altura suas pernas me hipnotizavam de tal forma que possivelmente eu já deveria ter dado na cara, não mais me lembrava do que me esperava na cadeira do doutor Alcides. Devia ser fútil, só gente fútil lê revista de fofoca em consultório dentário, com essas pernas só podia ser fútil. Provavelmente freqüenta baile funk sem calcinha, arrebitando o rabo pra todo mundo ver o que a roupa esconde. Não... Com essas pernas não. Era atleta! Isso sim! Atleta! Uma tenista! Talvez como aquela russa campeã de Wimbledon. É possível...
- Dona Virgínia pode entrar.
Levantou-se deixando cair a revista de volta ao cesto. Uma após a outra se entrelaçaram até chegar à porta que dava à sala de exames. Parou, exitou. Acho que ela olhou pra trás, mas eu só olhava para baixo.
A coleção
Bem que meu pai tentou, mas não deu, não vi Pelé e Coutinho jogarem, meu coração nasceu bruto como o sertão da Paraíba, minha categoria já era de vira-lata. Meu irmão mais velho vira, mas parece que não gostou muito do comodismo de ver um único time ser campeão de tudo. Certa vez jogando futebol de botão eu estava com o time do Grêmio de Porto Alegre, àquela época os jogadores do sul já tinham fama pela raça aplicada em campo, escolhi o Grêmio por isso e pelo medo de ver meu time perder. Meu time era e sempre foi o glorioso Corinthians, como eu era muito ruim na arte do jogo de botão preferi outro time, mas apesar de toda a raça aplicada pelo lateral Alfinete eu perdi de meu irmão. Tenho certeza que ele me roubou, já que era mais velho que eu e meus socos jamais o feririam. Perdi. E segui perdendo. Até que um dia briguei para ser o Corinthians à época meu ídolo era o Doutor, o cara jogava mais com o calcanhar que com a chapa do pé, certa vez ele disse na TV que fazia isso porque não sabia jogar, aí se virava de costas para poupar seus olhos da vergonha de um passe errado. Falsa modéstia, o cara acertava todas, por isso Telê o levou pra copa do México, Ah aquele pênalti do Zico! Modéstia que seu irmão no futuro não herdaria jogando por um time pouco modesto criado às barbas da burguesia cafeeira paulistana. Não adiantou muito eu jogar com o Timão, apesar de Sócrates, Zenom, Casagrande, Wladimir e Cia. a democracia perderia para a experiência do Grêmio, dessa vez comandado por meu irmão.
Não joguei mais, nunca mais! Ele me chamava pra jogar, mas eu não ia. Quem mandou ele ganhar do Corinthians? Afinal ele não ganhara de mim, ganhara do Timão, tinha que deixar a bola entrar pelo menos por um empate, nem parecia que era corintiano como eu, aliás eu que era como ele, meu pai querendo que eu fosse santista sem ver o Pelé e meu irmão que eu fosse corintiano vendo o Sócrates, é claro que eu deixaria o alvinegro praiano para os peixes e ficaria pelas bandas do parque São Jorge.
Nos anos 90 vi o maestro gordo Neto jogar, vi como ele bateu uma falta indefensável da intermediária contra o gol do pobre Santa Cruz num Pacaembu lotado em dia de frio. O resultado foi 3 x 1 e o Coringão seguia firme em busca do nosso primeiro campeonato nacional. A década de 90 viu também um carioca virar rei pelos lados do Tatuapé, ele fez com que eu voltasse a jogar botão, mas dessa vez ganhando de meu irmão. Fiz coleção de jogos de botão, achei até o América de MG vejam vocês! Uma coleção ímpar que obviamente deixou o Palestra Itália de fora, pois ninguém jogaria com o arqui-rival, e se jogasse claro deixaria a bola passar, tomaria alguns frangos e etc.
Minha coleção durou até o ano de 2006, quando da derrota para o River Plate em plenas luzes do Pacaembu pela taça Libertadores da América. No dia seguinte joguei a coleção toda de cima da ponte da Casa Verde deixando-a navegando sobre as águas do Tietê, era uma promessa que tinha feito à Virgem, pois ela me traiu, perdemos a libertadores, perdi minha coleção, o Timão perdeu e minha fé foi junto com a coleção, pelas águas bostadas do Tietê.
Crônica de um beque de fazenda
E de repente a bola veio para mim...
Foi meio inesperado, pois, confesso não ser um artista da bola, pelo menos não da redonda, mas mesmo assim, ela veio parar em meus pés.
Sempre fui conhecido mais por minhas enchadadas que pelos meus dribles, esses eram do estilo cometa Halley, aconteciam uma vez a cada 72 anos...
Isso tornava ainda mais incrível alguém tê-la passado a mim.
Estava sol no campo, eu já tinha tirado dois da partida com entradas viris que aprendi vendo Escudero jogar, meu uniforme, que era branco, se encontrava com uma cor entre o marrom e o vermelho sangue. E a bola veio para mim.
Senti um calafrio, um medo de fazer besteira. Pensei comigo mesmo: “faça o arroz com feijão, isola essa bola!”. Mas eu não podia, por mais que a torcida delirasse com meus chutões, eu estava mudado, tinha assistido a uma reprise de um jogo do Corinthians e vi Gamarra jogar... Classe, pura classe...
Decidi então parar com os chutes para cima e resolvi levantar a cabeça, olha o posicionamento de meus companheiros, pensar.
Eu realmente devia ter feito o feijão com arroz...
Mas não, parei, fiz pose de Bobby Moore, escolhi o predestinado que receberia meu lançamento, me preparei para aparecer na foto...
Prendi a respiração...
Chutei.
.
.
.
Perdi o equilíbrio, espanei a bola e caí no chão.
O atacante adversário pegou a gorduchinha, driblou o goleiro e marcou...
Que vergonha...
Eu realmente devia ter feito o feijão com arroz.
Um segundo
Só mais um copo por favor, Tomou a derradeira e partiu do bar do velho Matias, perambulou pela cidade em busca de alguma resposta que não havia encontrado nem em livros, tampouco em amigos, e a cidade também lhe deixou com sua ausência. Carlos tinha apenas vinte sete, vinte sete e nada de a vida acontecer da forma como sonhara que aconteceria aos vinte sete quando dos seus quinze anos. Frustrou-se cedo demais, achava a liberdade algo palpável como a carne ou uma roupa qualquer que se escolhe em dia de inverno, um vazio criado pela razão e apoderado de seu corpo interno, fez da busca pela reposta um desespero. ]
O relógio do mosteiro de São Bento sinalizava dezessete horas em São Paulo, verão intenso somado à estufa de um asfalto perturbador fazia abafar a capital, o tempo fechou, o negrume das nuvens obrigou alguns automóveis a acenderem os faróis outros a desviarem o caminho, ao sentir as primeiras gotas da tempestade tocarem seu braço Carlos parou e olhou ao céu, não gostou do que viu, cerrou os olhos, às vezes é melhor deixar de ver para gostar, ao seu redor uma correria generalizada, alguns guardas-chuva circulavam nas mãos de quem fugia do temporal, outros voavam com o dono molhado tentando recuperar aquele bem tão valioso que não custava mais que dez reais no camelô. Chorou. Chorou porque ninguém o perceberia chorando e uma sensação de bem estar descompromissado com a realidade estancada lhe envolveu, as lágrimas e a chuva seriam a mesma coisa, era tudo água e fuga, e chorando caminhou, esbarrar-se-ia naquele tumulto diluvial entre transeuntes e passantes que mais pareciam passistas de um samba desgovernado, um banho público sem nudez de vestimenta.
Chegou ao Vale do Anhangabaú quando a chuva já se desviara para outro destino, apenas vestígios de sua passagem havia pelas ruas, poças sujas de uma cidade não muito limpa mergulhavam na paisagem de um crepúsculo mal expresso. De cima do viaduto do chá cuspiu, Demorou viu! Disse a um jogador de búzios que fazia seu trabalho, Os búzios nunca mentem rapaz, volte ao seu emprego, Não posso, aquele lugar me sufocava, e agora que já pedi demissão não volto atrás, meu orgulho é grande, quero me libertar das amarras desse sistema, São cinco reais o jogo, Carlos saiu correndo no meio do viaduto, não tinha dinheiro, não tinha nada. À Avenida São João parou ponderou e olhou envolta, de um lado a Igreja dos Homens Pretos no Largo do Paissandu de outro a Galeria do Rock, não gostava de nenhum dos dois, nem da igreja nem de roqueiros, desceu a São João de volta ao Anhangabaú. Estava livre, sem trabalho, sem família, sem dinheiro, livre de qualquer dignidade e agora livre de seus sapatos molhados pela chuva.
Descalço adentrou ao edifício do Banespa, a segurança não o viu passar era discreto apesar do fedor pós-chuva que exalava como um cão, preferiu a escada ao elevador, a cada passo, a cada degrau que subia olhava para o que ficou e o que deixaria de ficar, minimizou sua pequenez universal sentindo-se grande diante dos lances que passava por cima, não queria pensar no passado sua vida estava em plena elevação tardia, mas elevação, logo teria a cidade aos seus pés, do mirante vê-se o que a liberdade pensaria em representar caso não houvesse outros e maiores mirantes, nesse e em outros universos.
Sucumbiu no décimo andar da Torre, pôs-se aos pés do sono. Ninguém o percebeu por ali, as escadas só eram usadas em caso de queda de energia ou incêndio, como nem um, nem outro aconteceram naquele noite, ele dormiu em paz. Apesar do sono tranqüilo acordou dolorido pelo mau jeito com que dormira por entre os degraus. Levantou-se e com fome continuou sua saga rumo ao topo da cidade, após algumas horas chegou ao mirante onde muitos turistas e compatriotas observavam de lá o cinza suspenso que encanta e faz tossir. Todos aguardavam o poente, visitantes japoneses comentavam em inglês que certa vez um paulistano de passagem por Okinawa lhes dissera sobre a beleza controversa do pôr-do-sol de sua cidade natal. Para um homem em busca de liberdade a cena do crepúsculo pode ser seu exato oposto, ao contrário do que afirmou o campeão de pára-quedismo Jorge Souto em entrevista à TV.
Carlos experimentaria a liberdade quando muitos visitantes já deixavam o local, apenas os japoneses presenciaram a queda, daí a impossibilidade compreensiva de os seguranças atenderem aos seus chamados de socorro, um help com sotaque nipônico, um vôo breve e a liberdade eterna, preso ao martírio físico não sabia o que viria após chegar ao solo, a dúvida era a sua verdade, pensava quando um pombo sujo de urbanidade lhe passou por suas vistas alguns milésimos de segundos luz (ou menos), pensou no vôo que alçara instantes antes, e agora vislumbrava seu pouso como a um urubu a avistar as carcaças de peixes miúdos ignorados pelos pescadores. Antes de o seu corpo se estatelar-se ao chão vieram-lhe imagens de seus miolos, tripas, pâncreas e restos de carne e sangue num mosaico sinistro entre ossos quebrados e poças d’água de chuva suja. Não gostou do que viu, imaginou-se como a um resto de estrela desfalecida, Um pó! Bradou aos peitos cheios antes de o coração parar sua atividade mundana. Livrar-se da vida é dádiva para poucos.
Um Sítio Comum
Não se ouvia nada, nunca nada era ouvido. Era como se fosse um eco surdo, um mundo inteiro fora de seu mundo. O eterno vácuo de ser você para si mesmo. Uma ausência despercebida pela satisfação das necessidades inatas. Nada sabia, nada e nunca soube dantes, esquecia-se olhar para dentro, e para fora do vidro, que se via embaciado pelo orvalho da aurora, o mundo era grande, enorme, mas pouco interessante para o palato ou para a sensualidade. A aurora pouca de luz oferecia-lhe, a cama é um refúgio confortável e estável, o sonho de qualquer mortal para aquém de Sócrates, o ofício de sonhar resigna-se entre o que se passa na mente durante o repouso e a testemunha inanimada do colchão, para que a vigília faça seu papel de uma constante feliz beirando o abismo ignorante da falta.
Era um sítio largo, porém humilde, uma casa, uma área gramada, uma encosta e um abismo. De cima se via o que a cidade fazia de sua economia lá embaixo, a encosta limitava seu campo de visão para oeste, o que não era muito diferente para leste, onde estava a ribanceira, direção coberta por uma micro floresta, o suficiente para bloquear a área de atuação ocular tanto quanto a encosta o fazia, a exceção de alguns carros nada mais se via lá do alto, mas as árvores eram belas.
Vivia bem com suas culturas de hortaliças ao norte da casa e seu galinheiro à beira da encosta, não necessitava carne vermelha seu cérebro não fazia questão tamanha proteína, às vezes pescava num lago contíguo, uma variação suficiente para seu limitado gosto.
Tinha tudo o que precisava, informação suficiente para sua satisfeita sobrevida, não lia nem escrevia, não somava nem subtraia. Bastava-se a si mesmo, entendia sua história, suas palavras, sua economia e seu sexo. Uma falta de pretensão beirando o encontro da eterna busca humana, inconscientemente.
Perdido... simples assim.
Não sei onde estou, a noite havia sido alucinante, nem lembro quantos Jesus me chama eu tomei...
Juro que nunca mais faço isso... Acompanhar o Mmatteucci na ladeira da alegria não é fácil. Coloquei para dentro tudo que havia de líquido em garrafa e lata que tinha naquele bar púrpura.
E nem deus sabe o q coloquei pra fora naquele banheiro fétido.
PQP, que ressaca...
Parece que engoli um guarda chuva (agora na versão sem hífen), preciso de um gatorade ou algo do tipo.
Bom, mas primeiro vou abrir os olhos.
Hooooooooooly crap!
Alguém apaga esse sol por favor!
Que coisa molhada é essa na minha boca?
Putz... um cachorro lambendo minha boca, devo estar numa sarjeta, belo clichê...
Bom, vamos lá, hora de tentar virar gente de novo.
Abrindo os olhos devagar, tentando me acostumar à luminosidade excessiva...
Levantando devagarinho, oooopa, quase caí de novo.
Pronto, consegui, estou em pé.
Continuo sem saber onde estou.
Que gosto horrível na boca, ainda bem q sempre tenho uma goma de mascar no bolso.
Hmm..
Agora sim, bafo sabor menta.
Uma pessoa vem vindo.. o q faço?
- Sr, por favor, uma informação. Onde estamos?
- Na Rua Avanhandava, meu jovem.
- Muito obrigado.
Caramba, será q desci rolando até aqui?
Não sei, só sei que agora já posso voltar pra casa.
Presentes...
Performance, paixão...
Malabarismos impensáveis...
Atos proibidos com a mãe dos meus filhos.
Perigo,
Sabores...
Experiências.
Um único compromisso,
Manter o segredo,
Nunca me ligue.
Nunca.
Eu amo minha mulher,
Você?
Você me dá tesão,
Você me alivia,
Você me tira desse mundo
Cotidiano.
Não espere
Nada
Além.
Sem atrito
Fazia calor naquela tarde de inverno, mais umas dessas indeléveis intempéries climáticas fruto das modernidades mundanas, a temperatura era muita para aquele pouco corpo moreno de sol e franzino de vida. Era mulher já quase madura, quase feita, oscilava a idade entre vinte e sete e vinte oito anos, uma dessas esquisitices femininas para não se comprometer com a vida, mas a verdade é que continuava linda como aos dezessete ou dezoito. Desabotoou a blusa branca que transparecia o sutiã também branco, não sacou-a, esperou. Desatarraxou o sutiã com a blusa ainda cobrindo seu colo, o sutiã caiu ao chão colocando à mostra seios firmes quem olharam ao adversário como quem incita o guerreiro à luta, a tênue cortina que protegia seu peito rasgou-se por uma brusca puxada de seu conviva casual, quando da nudez o humano parece esquecer quem assim deve ser, assim sempre foi, e assim será. Despe-se a roupa fica o pudor, coisa pouca que muito afeta a vida em sociedade, coisa grátis que cobra um tento a cada consciência de que suas existência e criação dependem de um humano superior, sacerdotal, que quando do himeneu de seu prelúdio animal sede à tentação, ademais de qualquer voto de castidade, o maior pecado é ignorar ser o humano uma espécie dentro da espécie. O suor marcou essa tarde, o suor pelo sol a pino, o suor das axilas, o suor dos nervos em fúria de transição, o suor da contemplação estética de outrem, o suor corpóreo que minimiza o atrito como numa equação física a se ignorar o atrito para que se chegue a um resultado menos dolorido possível, o suor do feromônio.
Consumado o ato vestiu-se de sua saia negra de secretária, abotoou os insinuantes botões da blusa braço-transparente, tomou de sua bolsa e se foi, deixou-o estatelado a dormir, como um servo em seu descanso pós-obrigação. Trancou a porta do quarto quebrando a chave na fechadura de modo a não se poder abrir a porta tão cedo. Ao adentrar sua casa, como de costume, seu esposo já lhe esperava com a janta ao forno, pato assado com batatas souté era o prato do dia, saboreou-o com muita gana, estava delicioso, melhor que o breakfeast daquele mesmo dia, quando ela mesma preparara deliciosas panquecas e ovos dourados acompanhados de suco de laranja e chá preto para seu esposo que adorava.
No dia seguinte faltou ao trabalho na parte da manhã, queria saber como estava seu chefe no quarto daquele hotel. Na recepção recebera a notícia que aquele quarto estava desocupado e que se quisesse estava em promoção a diária com meia pensão. Aceitou a proposta e pegou o cartão, substituíam todo o sistema de fechadura dos quartos do hotel para cartões magnéticos que bastavam serem postos no encaixe para a porta ser aberta. Ligou ao escritório e informaram-na que o chefe ainda não chegara para a lida, previa um serão para depois do serviço, do celular mandou um torpedo ao marido avisando que ficaria até mais. Já era quase noite feita quando ele chegou, houve uma pequena discussão por causa do incidente da chave, mas ela recordou-lhe que não fazia mais que realizar um fetiche dele, ele consentiu com a cabeça, mas não se conteve, foram inúmeros safanões, murros e chutes, violência bruta em seu estado mais bruto, tentou se desvencilhar daquele parceiro antes tão desejoso e amável, mas era fraca demais para aquele gordo.
Não retornou à sua casa, dormiu lá mesmo toda dolorida da surra, mas como era boa a dor! Poucos sabiam apreciar a transcendência da dor e seu esposo não era um deles. O patrão gordo chegou ao hotel por volta das quinze horas, mesmo período em que seu marido dava queixa com o delegado Zé da décima nona DP:
- Infelizmente temos que aguardar quarenta e oito horas para registrarmos queixa de desaparecimento.
- Que absurdo!
- Não posso fazer nada, só cumpro as leis.
Ela acordou com um lindo ramalhete de orquídeas a seus pés, às vezes seu chefe se dava ao luxo de rompantes românticos, o que lhe dava medo, não queria maiores envolvimentos emocionais desejava apenas o cargo de executiva chefe, o que jamais conseguira. A PM encontrou seu corpo coberto com tais flores, roxo e desvanecido à porta da suíte, ao criado-mudo pendia um bilhete sem rubrica:
“O amor transcende a barreira da moral, a isso são raras as compreensões.”
Ao avistarem o bilhete um estrondo vindo do banheiro, um som de queda ou algo que o valha. O corpo obeso com hematomas pela cabeça devido à pancada à beira da banheira, pouco sangue havia, os laudos periciais acusaram morte por envenenamento. Sem solução o caso foi arquivado. Enquanto se armava o circo, polícia, imprensa, curiosos e transeuntes, seu esposo tomava um delicioso e amargo café no estabelecimento contíguo.
Houve alterações, sempre as há de havê-las. A feminilidade não pressupõe exatidão ou estabilidade, eis o charme. De lá pra cá de cá pra lá, entre risos e choros, glórias, louros ou mau agouros, a parte sensível humana não permite quaisquer decretos finalista e fatalista. Uma eterna transição entre pólos opostos internamente, luta incondicional cuja glória não se mede pelo tanto que se ganha e sim pela eficácia da operação, normalmente levada a cabo sem prévia concepção. Essa incógnita do gênero feminino, estudada inúmeras vezes por inúmeros profissionais, da psiquiatria à dramaturgia, da filosofia às artes aritméticas e científicas da medicina, porém todas as especulações conclusivas acerca do assunto nunca foram satisfatórias, explica-se o fenômeno, detecta-se a causa a vida continua a mesma, o que altera-se é o consumo, dos farmacêuticos à cosmetologia, a feminilidade, através dos tempos, só cambia de alegoria e de humores, o que, em rude análise, não é passível de câmbio, não se altera o que é instintivo.
Aconteceu lá pelas bandas da Zona Norte, um crime cuja autoria era feminina, a vítima, um rapaz de vinte e oito anos estudante de engenharia numa dessas faculdades que do quintal surgem e dominam o ministério da educação, quiçá hão de dominar o globo. Diziam os clientes ser ela uma mulher como qualquer outra e que mesmo quando irritada demonstrava docilidade, contradição própria do gênero. Ela o matou, é verdade que o rapaz não era tão direito quanto as fantasias femininas de criança sugerem, mas da parte dela não havia outra demonstração senão o desejo sexual, o que para ele era muito conveniente, ele acreditava que as mulheres não tinham a capacidade intelectual muito apurada o que nunca escondera de Sônia, esse era seu nome, e ao que ela sempre relevara, pela irrelevância da infantilidade própria do ser masculino, não parecia tão irrelevante quanto sugerem as tatuagens deixadas no corpo do rapaz. O aspirante a engenheiro havia presenciado por vezes a variação de humor de Sônia, Nada mais natural para uma mulher! Sua opinião sobre as mulheres era digna das opiniões dos senhores de engenho. O desdém dele para com ela não se assemelhava exatamente com o que se beira ao agradável, isso se supondo que haja desdém agradável, Sônia sabia mascarar seu verdadeiro sentimento com o lugar comum das alterações de humor atreladas às instabilidades hormonais femininas, em favor de seu ímpeto sexual próprio dos trinta anos.
Em seu estúdio de tatuagem Sônia era muito solícita, para tal profissão são necessárias calma e espírito cômico, o que ela tinha de sobra quando o espaço da sobra não estava ocupado. Costumava fazer os mais diversos desenhos, de dragões a lagartixas, de borboletas a sinistras caveiras, sugeria o que se era de sugerir e se calava quando sua opinião profissional contrastava com a convicção do cliente, nada muito diferente de seus relacionamentos afetivos, aliás, não fazia muita distinção entre o campo profissional e o pessoal, o que sentia, sentia em qualquer lugar, o que mudava era a situação e o que chegava aos limites do suportável e insuportável.
Às facadas se seguiram belos desenhos, verdadeiras obras de arte, tatuagens sugerindo pecaminosas construções palacianas, caveiras ao lado de índios, tubarões e azaléias, pinturas de flores feitas com sangue na parede da cozinha. Ao que indicam os laudos a assassina ficara retalhando a vítima com seus desenhos por pelo menos um mês, tempo estimado por tatuadores profissionais para que se cubra um corpo médio masculino sem que haja um espaço de pele à mostra. O caso entrou para os anais da psicocrminalística, virou referência de estudo, tornando-se um clássico mais tarde, para faculdades de direito, psicologia e medicina com especialização em psiquiatria, nos cursos para cabo e sargento PM o caso era citado com freqüência, no exército os recrutas já sabiam do caso na fila de alistamento. Oscilações de humor são inexplicáveis aos olhos humanos, muitos deixaram isso para a religião que além de explicar conforta o que não se entende. Sônia, após seu linchamento público, ficou na memória social como verdade ou lenda, algo incerto como sua derradeira atitude.
O Puro Nu
Entrou na sala com seu traje de gala, a tarde ainda era pouca, esperaria até o início do evento, colocara-se só sentada ao centro daquele ambiente de luz turva apesar do externo sol escaldante do verão tropical. Nenhum samba, nenhuma ode a si mesmo, nenhum nada, ademais daquela luz gótica a adentrar o recinto entre as fendas das cortinas semi-cerradas. Não havia ninguém na casa, adaptou-se bem à plena solidão da desintegração familiar, despiu-se em frente à janela ainda acortinada, abriu o pano deparando-se com verde mar defronte, desejou mergulhar nua na primeira onda que quebrasse em seu ventre opaco de aborto juvenil, quando do complemento de seus dezessete anos, quinze anos antes. Pernóstica, vislumbrando o mundo além de si, percebeu-se como quem vê o resto, o externo era ela além do mundo, um olhar apurado para o que não se explica por vãs palavras, vãos pensamentos fúteis sobre a beleza ou a estética como filosofia moral, nada apesar de o nada sempre estar próximo de sua representação físico-corpórea, presente em suas relação amistosas, em seus passeios urbanos, em suas refeições vegetarianas, em seu café, em seu eu.
Fugiriam-lhe as palavras do que fora recebido pelo olhar e toda conotação explicativa do que é perceber o mundo pela pele, o tato é um justo sentido quando do sexo ou da dança, contudo furta-se o conhecimento ao abrir dos olhos, ao ruído de qualquer manifestação súbita de ente natural doentio. Era nudez de roupa, não de vaidade, o espelho lhe sorria, era bela mulher de trinta e dois anos, delgada como a moda e a medicina lhe disseram ser ideal, assim era melhor, não passaria vergonha ao adquirir vestido ou roupa íntima, para tal definição física nunca fizera nada além de sua dieta vegetariana o que pra ela era natural, desde pequena rejeitara qualquer tipo de carne, apesar de os avisos paternos, O cérebro humano é um órgão muito exigente, ele só consome proteína, e sabes onde encontrá-la? Já crescida e com as palavras que seu pai repetia toda janta, no almoço era cada um por si, matutando em sua mente, o costume lhe fez degustar peixe, toda semana, na sexta-feira, havia um peixe diferente, linguado, tainha, salmão, robalo, cação, dourado, tudo de acordo com o conselho do peixeiro, Peixe deixa a gente astuto sabia? Sabia, se até Jesus multiplicou peixes e pães, sabia tudo, mas nunca soubera o prazer da nudez desinteressada. Dirigiu-se à cozinha, apanhou a leiteira de alumínio, asseou-a com água lavou-a um tanto mais com detergente, encheu-a até a boca com água e acendeu o fogão, deixou o escasso líquido exposto ao calor até chegar aos cem graus celsius. Ferveu como aquela tarde, Alô! Suzana? Letícia? Oi amiga, ta em pé ainda, Sim claro, esteja aqui às cinco. O dia passou, a água esfriou, não saiu de casa o tempo todo, leu futilidades, atendeu outros telefonemas, outros camaradas, assistiu TV, foi à janela, na internet pesquisou sobre praias de nudismo nas cercanias de sua casa, nada encontrou, continuou nua até às zero horas quando um vinho abriu seu apetite pela vida, comeu salmão, era sexta-feira de salmão, salmão fazia bem, melhor que alface, melhor que feijão, Viva o salmão! Gritou de si para si, os vizinhos, os que não tinham caído na noite, dormiam, despreocupada com isso ligou o som num volume acima do médio, quase alto, era uma música frenética meio eletrônica, meio acústica, uma nova loucura da pós-modernidade, correu ao armário a procurar seu vestido prata que ficava colado ao corpo exibindo o que ela adorava exibir, sua auto-suficiência, vestiu-se, dançou, se divertiu na companhia da bebida dos deuses e dos padres, Ouviriam os sacerdotes música alta dentro dos mosteiros à meia noite regados a vinho e vestidos prateados? Quem sabe... Cansou de seu óbvio ululante, ainda vestida e embriagada tentou abrir o chuveiro, por duas vezes escorregou, caiu, cochilou ali mesmo por alguns minutos, arrancou o vestido e ligou seu banho, deitou-se sob água fria deixando-a cair sobre a cabeça, passou a embriaguês, ela deduziu, secou-se e nua se deitou no meio da sala com a janela aberta às duas da manhã, o vento soprava refrescante casa adentro, sentiu prazer ao ser tocada por ele nos pés, pernas, púbis, ventre, seios, pescoço, rosto e sentiu seu cabelo cada vez mais seco com suave perfume marinho.
A campainha tocou, levantou-se do chão, eram quatro e meia da manhã, com sua vaidade exposta dirigiu-se à porta, no caminho tropeçou, caiu, levantou, o vinho ainda estava em sua companhia, O que é isso Su! Mas Letícia ainda é madrugada, o que faz aqui? Esqueceu do chá, eu já dormi assim, é bom, Hã, do que está falando Leca? Mas para abrir a porta no mínimo uma calcinha né, Ah é, é bom sabia, porque não experimenta? Em casa eu também fico assim de vez em quando, Mas porque não experimenta agora? Como assim? Sem malícia, experimente ficar nua comigo vamos, Nua, nua? Peladinha, isso, vamos tire essa saia, essa blusa, Mas os rapazes vão chegar logo! Ah é, o chá né? Esqueceu que tínhamos marcado às cinco né? Esqueci, to de ressaca, Saiu ontem? Não, tive um instante de auto-conhecimento regado a vinho e solidão, Ta explicado, então vá se trocar que o pessoal já está pra chegar, Não, tire a roupa! Como assim? É isso mesmo, tire, decidi que todos ficaremos nus, quero medir a coragem dos meus amigos, Ta bom louca, Letícia ficou nua e foram ferver a água, eram esperadas mais cinco pessoas, três homens e duas mulheres, Chegaram! Será que falta alguém, não importa, não gosto de me atrasar.
Espantados com aquelas garotas nuas dois homens não entraram, tiveram receio, medo, desejo, vergonha tudo ao mesmo tempo, à exceção de Célio, Nuas vocês são ainda melhores sabiam? Sabia, Eu não, sempre tive celulite, Letícia era mais uma dessas mulheres complexadas com o corpo apesar de sua beleza estrutural, Pois as duas são lindas, cadê o resto do pessoal? Acho que seremos só nós três, Carlos e Jurandir fugiram como você pode testemunhar, Janaina e Beatriz mandaram uma mensagem pelo celular dizendo que estão indo dormir, beberam muito na balada. Apagaram o fogo, o chá estava pronto, tinha pra vários gostos, mas todos acharam mais prudente tomar o de camomila pela eventualidade da nudez coletiva, Sabe como é né, melhor prevenir do que remediar, a essas palavras de Célio Suzana levantou-se para pegar umas bolachas caseiras feitas pela avó que a visitara na semana do natal, ela quem lhe disse acerca das praias de nudismo da Paraíba e ao que parece ficara latente em seu subconsciente, Célio quer bolachas? Por favor, Pra mim também, disse Letícia, na normalidade daquela formalidade amistícia Célio bebeu, Letícia bebeu, sentados no chão ao redor da mesa baixa, às cinco e trinta e dois, brindaram à naturalidade da pureza sensual, nus não haviam o que esconder, ao ver a marca na bunda de Célio, O que aconteceu? Apanhei, Mas porquê? Nada demais, Mas está roxo Célio! Eu pedi, calaram-se as duas, beberam outros goles, o chá esfriara um pouco, Querem Mais? Eu quero de erva doce, tem? Eu também replicou Letícia, Leca me ajude com a água, pretexto esse para uma rápida fofoca, não sabiam elas que homens também gostavam de apanhar, Um tapa de leve ainda vá, mas deixar o outro roxo é demais, “O poeta é um fingidor/ Chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”, Era assim a estrofe do Pessoa? Ah Leca como vou saber dessas besteiras poéticas deixe-me cá com minha nudez, Precisa ler Nelson Rodrigues, Preciso é esquentar essa água, me passe o bule! Estranho o Célio não, eu não o conhecia muito bem, Eu também não, Demoraram meninas, Célio Você é gay?
O sol fez o dia amanhecer estranho, um mormaço insuportável, após um mergulho na praia Célio voltou ao seu velho karmanguia e pegou a estrada para São Paulo, Letícia adormeceu ainda no sofá da sala, seus seios pendendo para lado direito não deixaram Suzana dormir em paz, estava em dúvida se lavava a louça ou ajeitava sua amiga no sofá, o chá que iniciara às cinco terminou culpado pela transparência na dúvida humana sobre o humano, o café da manhã não foi servido, Letícia se foi antes do início do entardecer posterior enquanto Suzana ainda dormia, acordou às dezessete horas, banhou-se, vestiu-se e ligou para Célio, ao pedir desculpas, Por isso sempre neguei encontros furtivos com as mulheres, vocês sempre querem saber mais do que necessitam, Estou arrependida Célio, venha pra cá no fim de semana para esclarecermos a situação, Não, pra mim já está tudo bem claro, tem a noção do constrangimento que me fez passar? Sua retração não lhe permitia dizer o mínimo que se diz sobre as paixões masculinas a uma mulher, acabou sua esperança de continuidade da espécie, desde a adolescência Suzana fora o amor de sua vida, ao vê-la despida, impudica e sem malícia, deixou de desejá-la, deixou de querer dizer o que sempre quis, deixou de querer despi-la, alterou sua vida num rompante de clareza, desejou Letícia, Suzana despida era a imagem do fim, era o que faltava, o chá. Já bebera cerveja, cachaça, refrigerante, café, uísque, suco, mas chá era a primeira vez, E nua!
Suzana e sua auto-suficiência não foram suficientes ao baque, supriu a ausência com maquilagens diversas, gastanças no shopping e bebedeiras com as amigas, trocava de homem quando lhe dava na telha, mas o vazio ficou. Jamais quis saber de praia de nudismo novamente, pegou asco a chá, e se não estivesse sonhando antes de às cinco badaladas do relógio não mais sonharia. Nua agora só no chuveiro e no escuro, aprendeu a ler Pessoa, pois a leitura se aprende assim como se aprende a comprar, a beber ou dançar, a leitura deve se fixar no cotidiano, para que o cotidiano viva a leitura junto da cerveja, do mar e das trevas.
RODRIGO H.
Alice levanta seus braços antes mesmo de abrir os olhos, de modo a esticar todo seu pequeno corpo, se espreguiçando contra a árvore em que se encontrara encostada, finalmente terminando o que talvez fosse um dos mais estranhos e envolventes sonhos que já tivera.
Ela ajeita e desamassa seus curtos cabelos pretos, abrindo seus olhos castanhos, ainda levemente aturdidos pela forte luz do sol. Ela olha confusa ao seu redor, sem conseguir se lembrar de ter se perdido tão profundamente no sono, ainda mais recostada à sombra de uma árvore.
Não uma garota urbana como ela. Em seus rápidos pensamentos, a primeira idéia que lhe passa é a de ter sido abduzida por algum estranho, como a realidade inescapável do destino que sua avó pregava quando viva, tão veementemente, em toda vez que falava sobre os perigos da noite como ferramenta funcional para manter a neta em casa nos finais de semana à noite.
Ok. Noite. Ela se lembra de ter saído, ela se lembra de ter bebido. Um pouco mais do que devia, ela confessa com certa culpa a si mesma. Mas até ai, ela sempre se julgou ‘forte’ para bebida, ao contrário das suas amigas que mal conseguiam segurar algumas taças de vinho dentro de seus também pequenos corpos. Alice busca em sua memória o garoto alto de cabelos castanhos e franja com quem passou grande parte da noite passada, e tenta isolar em sua mente qualquer momento especial onde ele possa ter lhe passado algo, um drink, uma droga que fosse, sem que ela percebesse.
Mas coitado, entre os beijos eles mal se falaram, e o cara nem bebia, todo cheio de pruridos fora as evidentes mãos bobas já esperadas. Não, ela conclui que deve ter sido algo depois. Algo entre aquele ‘What You Waiting For’, mas na versão com a melodiosa voz do Kapranos, e a leve recostada no sofá de estampa de zebra, numa súbita sensação de cansaço, a moleza inesperada em suas pernas.
Foco. Alice olha ao seu redor e realiza que se encontra sozinha em um infinito campo verde, aparentemente bem, sem nenhuma marca que remetesse a perda de um rim ou qualquer outro órgão de seu corpo. Seu celular, fora de área, repousava inerte em seu bolso, e ao seu redor, árvores espaçadas em um campo verde que vai até onde sua vista alcança. Inabitado. Como um filme de ficção científica.
Ficção científica definiria bem para Alice, o coelho que para em seus pés, trajando terno e monóculo.
“Você sabe que morreu, certo?”
O pânico de ouvir um coelho falante, tira todo e qualquer foco ou atenção e toma uma importância bem maior do que exatamente ele disse, transformando as pernas de Alice em duas varetas de gelo. Porém, o suor frio e a incapacidade de se mover desaparecem frente a um forte cheiro de.. chá?
“Haha. Que choque! Mas eu realmente sairia daí se fosse você, afinal, são cinco horas, o tempo urge!”
Alice ainda em óbvio choque, sem conseguir processar as palavras que o coelho profere com seu espantoso sotaque inglês, sente algo bater em seu calcanhar, o que a faz se virar, apenas para ser surpreendida por uma enorme mesa de chá. A toalha, de tão branca, ainda exalava um odor de limpa, mesclada com o saboroso cheiro de doces e bolos que eram apresentados de forma a cravar inveja na alma de qualquer vitrinista de confeitaria. Observar aquela mesa posta remetia a Alice memórias de uma época mais simples na casa de seus avós. Não que seus avós fossem coelhos ou tivessem sotaque britânico, claro.
Não que ela sentisse qualquer tipo de culpa pelo que fizera anos atrás, apenas um leve sentimento de remorso por dias perdidos e só. Tudo era uma questão de dúbios pontos de vista e o impopular descontrole emocional, mas sob sua impecável noção de certo e errado, Alice sempre preferiu se encaixar na primeira. Quando as coisas acontecem rápido demais, se perde a objetividade. Ninguém pode se culpar por algo feito quando claramente se estava fora de si. Seus avós não deveriam ter sacrificado seu coelho de estimação, em favor de um suculento guisado em uma noite fria de inverno. Talvez, dessa forma, ela não os teria assassinado após a sobremesa.
Mais um gole de seu Earl Gray enquanto os coelhos em sua volta exibem uma predileção por camomila. Ela não gosta, apazigua. Enquanto ela os observa e tenta imaginar quão apurado seria o paladar dos seus elegantes companheiros de mesa, Alice saboreia o chá das cinco, com gosto, e uma leveza de espírito que se exprime em um suspiro profundo antes de mais um gole. Ela realmente não sabe onde está ou se está sonhando, mas em seu chá, ela encontra uma tranqüilidade impar. Porque ela deveria se preocupar?
ANDRÉ OZ
O Totem Eterno
-Um engodo! Eis o que sois. Um engodo.
Anos antes da fala proferida Joelmir ganhara um prêmio, trinta e cinco milhões em moeda estadunidense pela loteria federal, Ganhei! Trinta e cinco milhões! Que maravilha! Ele um operário da indústria de calçados em franca expansão no período do milagre econômico brasileiro ganhara um valoroso prêmio, não quis saber sobre as vacas gordas que assolava o país, poderia largar tudo, largou emprego, casa velha, carro velho, velhos amigos, velha família, cachorro, esposa, sogra... Esposa? Vais me largar Joca? Não posso crer nisso! Meu deus olha o que o dinheiro faz com a integridade do homem. E seus princípios? E as juras de amor? E o compromisso selado diante do padre? Não me digas que virou da macumba também? Pois esses macumbeiros que têm mania de ir à Bahia falar com Oxalá ou sei lá o raio que o parta!, Joca iria à Bahia realizar seu antigo sonho de ver as belas praias do norte, assim se referia ao nordeste brasileiro, terra natal de seu bisavô, onde o sol sempre brilhava e as garotas andavam quase nuas, o carnaval era mais que uma carnificina e a comida apimentada era um elixir, uma ode a Eros. Um momento! Mas e a esposa? Acabou Ana! Acabou. Não quero mais! Vou sair, vou ver o mundo sem ti, partiu no dia seguinte rumo às praias baianas a começar pelo sul do estado, pretendia ir até a costa maranhense, quanto ao divórcio seu advogado resolveria tudo, não mais esquentaria a cabeça com Ana, afinal de contas eram dez anos ao seu lado, mas são dez anos Joca! Dez anos! Como pode! Vai jogar tudo assim pro alto por causa de uma viagem ao nordeste? Vou, Se você for será o dobro de gasto, gastando assim como poderei abrir meu posto de gasolina em Ilhéus? Posto em Ilhéus! Mas você nunca me disse nada sobre isso! Inventei agora, acho que será um bom investimento e não precisarei mais ficar colando sola de sapato pra capitalista nenhum, serei meu próprio capitalista, E quanto a mim? Fique tranqüila, terás uma gorda pensão, e saiu deixando Ana chorando ao telefone cujo choro sua mãe Jacinta consolava do outro lado da linha, E tem outra! Diga a sua mãe que vá pastar! E que nunca mais irá me encher o saco por causa de emprego! Passar bem.
Ana trabalhava em casa, sua renda se resumia a alguns doces que confeitava para festas infantis, a pensão seria uma maravilha para ela, não precisaria mais trabalhar, compraria novos vestidos, viajaria também e quem sabe não abrisse um comércio qualquer para que o ócio não lhe consumisse a alma, aliás teria mais tempo pra se dedicar à igreja e a ajudar os pobres coitados do bairro, cuja culpa lhe consumia a reza todas as noites para que deus lhe absolvesse o espírito, seu coração era bom, o problema era tempo para a caridade, “Ele morreu para te salvar”, estava grafado em sua porta. Durante semanas Ana mal comia, tomava coca-cola, disso não havia Santo Expedito que lha salvasse, o sono é privilégio para quem cansa, como não mais trabalhava, não se cansava, resolveu que sua alma seria salva pela abdicação ao repouso, fazer desnecessário a quem nesse estado assim está.
Seu sofrimento não alcançara dois meses, quando do recebimento da pensão espontânea de Joca, Cinco mil dólares por mês! Muito, bom, muito bom... Mas ainda está pouco, bom, porém pouco minha filha, Mamãe! Não seja boba Aninha, eu se fosse você lhe arrancaria até o calção, Eu tenho índole mamãe, a senhora sabe o que é isso? Pois eu possuo, tenho caráter, sou dos princípios de cristo, os mandamentos estão tatuados em minha mente, cinco mil dá, sobram e ainda posso me dedicar ao bem gratuito, não é porque Joca está (pois nunca fora) canalha que preciso me igualar, está, pois em dez anos de casamento sempre teve honestidade, Você é tonta, isso sim, o que já recebeu de deus até hoje? Um casamento arruinado por um bilhete de loteria cujo dinheiro não verá nem a metade, Não discuto com descrente, lamento.
Foi à Bahia, de tudo o que viu o turismo sexual lhe foi o mais aprazível, ninfas ao preço de banana, voltaria outras vezes àquele estado para dançar conforme a perdição dos trios elétricos e cantar o doce fado danoso à moral, Moral? Quem liga? E como fica Ana com isso tudo Joca? Ah Marcelo, tome uma e fique quieto! Tome, tome, compre um capeta e vá procurar uma qualquer que te agrade, sai de mim! Marcelo bebeu, bebeu bastante, tão bastante quanto Joca, ao ponto de acordar jogado no meio da areia da praia rodeado de siris a lhe espreitarem o traseiro, Joca amanheceu numa casa para meretrizes, preocupado com a Camisa-de-vênus, Usei? Claro meu rei, sou profissional.
Num período duo decênio, de 1976 a 1996, Ana recebeu religiosamente sua pensão e fez bom proveito dela de acordo com seus princípios cristãos, converteu-se ao neo-protestantismo toteniano, mais conhecido como totentantismo brasileiro, fundando um templo em 1992, Joca não comprou posto algum nem investiu sua gaita em nada, dedicou-se à luxúria e aos prazeres palatais da carne e do vinho, foi fiel seguidor de Dionísio, gastava tudo com quem lhe quisesse ajudar a gastar e consumir, abria a mão para quem lhe honrasse o cumprimento, do desjejum ao uísque matinal, a quem lhe agradasse traduzia os agrados em consumo. Findou, a fonte secou, encontrou Ana em sua “Igreja Petencostal do Totem Eterno”, prosperou, antes pensou em ser missionária no oriente, desistiu, ficou e arrecadou, Dna. Jacinta converteu-se ao totentantismo, recolhia o dízimo, logo apelidado de periódico pelos fiéis mais maldosos, na casa do senhor também há maledicências, fazia a contabilidade do negócio, Joca? Olá Dna. Jacinta, O que houve contigo? Que roupa é essa? Fali, a tempestade veio depois da bonança, Se fodeu! O diálogo deu-se no meio do templo, ninguém os ouvia, a conversa sussurrada, as palavras proferidas por entre as arcadas dentárias, num misto de ódio e pudor, se fodeu gos-to-so! Jacinta ria-se como os infernos, com o coração cheio de auto-piedade e salvação e a bacia aos tostões dos fiéis, Onde está Ana? Que te importa! Se quiser sentar-se fique à vontade, o culto já vai começar, dízimo? Não vê que não tenho nada mocréia? Jacinta novamente riu, A senhora se converteu é? Vá pra puta que pariu! Deleitando-se com a última palavra, Pariu! Num gozo jocoso, onde “pariu” tinha mais peso que “puta”, Deus está vivo, Ele existe e está no meio de nós.
Deu início o culto, Ana linda como nunca e vinte anos mais velha, aos quarenta e cinco parecia muito bem, quase uma obra de deus, Joca nunca entendera os padrões do belo, nunca lera filosofia estética sequer, nem nada a respeito das modas atuais. Foi ao acaso, recebera um panfleto falando sobre o totentantismo e como ele recuperaria as almas e os espíritos (por mais redundante que pareça assim estava escrito) degredados da civilização divina, ao rodapé do papel havia o endereço do templo, cujas instalações abrigavam uma ala para recuperação de adictos, droga e jogo, Joca necessitava ambos, mas ignorava qualquer possibilidade de doença venérea, no SUS a fila para um simples exame sangue já era contada em medida temporal. Ao término do rito, Joca! Ana! Que surpresa agradável você nos visitar, já se foram uns vinte anos, quais as novas? E as andanças pelo mundo? Me perdoe Ana, Águas passadas, Não estou bem, soube que aqui vocês cuidam de dependentes químicos e jogadores compulsivos, Sim, cuidamos de uma infinidade de moléstias do corpo, mas sobretudo as da alma, aqui são todos bem vindos, cheiradores, maconheiros, viciados em crack, em jogo, palmeirense, corintiano, tudo! Sem exceção, ajudamos todos Joca, com você não poderia ser diferente, mas é necessário que passe por provas de aptidão, topas? Tenho escolha? Não, mas me conte sobre suas aventuras, Não me perguntes sobre o que passou, O tratamento começa pela gênese do paciente, vamos diga, mas como já sei de boa parte comece pelos últimos dez anos, Não faça isso Ana, por favor, me expulsaria antes do terceiro parágrafo. Joca fora submetido a um tratamento intenso chamado “Lavagem inforracional”, onde o paciente era exposto a uma carga horária de doze horas diárias de televisão num período de um mês até que perdesse boa parte dos sentidos, no início o coração ficaria na boca e os sentimentos expostos a quem quisesse vê-lo, assim o que não fosse interessante à prosperidade da igreja seria exumado e posto numa gaveta intocável, deram-lhe banho, água potável, comida, roupas novas, à noite sempre havia um sopão e café com água e sal pela manhã, à tarde a enfermeira lhe aplicava uma injeção que o fazia regredir a um estado semi-infantil, como quando os humanos e os símios eram quase parte da mesma raça, sob efeito da droga regressora Joca e os demais adictos cediam à cruzada inquisitória para catequização dos suscetíveis à maledicência, mas ele não cedera aos efeitos psicotrópicos da injeção inquisitória, Joca jamais contou o que passou, mas Ana soube de cada pormenor, em frente à TV ele se diverte com a sortida gama de produções televisas disponíveis no controle remoto, às vezes lhe é liberado o vídeo game, Ana observa tudo pela pequena janela 10cm x 20cm que dá para o corredor, numa idéia horizontal do recinto seus olhos rodopiavam desviando-se do devaneio que seria a lembrança do que um dia foi o amor de sua vida, sua vingança estava fria e pronta, para dentro o mundo só faz quebrar cada vidraça de artéria espontânea, a dor da ausência não finda com o retorno do objeto saudoso, como um rato in vitro Joca ali estava em sua caixinha, nada anormal para a realidade da sociedade capitalista, o que antes caixa de sapato ou prêmio de loteria, agora clínica de recuperação com TV a cabo e sopão, o contemporâneo é assim cada caixa escolhe seu conteúdo descartável em sua quimera optativa em função do próximo passo, num caminho arquitetado sempre antes do primeiro nascimento da geração vindoura, deduz-se que escolhe o que escolheu, Porque te falaria o que passou Ana, em que te importaria minha ninharia egoísta? Joca, eu preciso saber até onde o dinheiro vai me levar, somos muito parecidos, por isso fomos casados, somos o que aqui interpretamos, somos a ausência do que fomos, tudo o que amamos e os amores que não conhecemos, o mesmo resto, o mesmo pó sob as patas do ácaro que te infecta com alegria, minha droga é a droga de deus que a grana comprou, sua droga é a grana que a droga comprou, diga-me, necessito saber!
“Ele morreu para te salvar”, estava assim escrito em todas as portas de todas as salas, inclusive dos banheiros, do templo da “Igreja Petencostal do Totem Eterno”.
RODRIGO H.